Para Maria Calasans, tratamento é fundamental para evitar problemas nos adultos

TDAH: diagnóstico precoce é a solução

Desatenção na infância pode estar relacionada ao problema

Olhar desatento, pouca interação em sala de aula, dificuldades em concentração. Alguns aspectos que caracterizam o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Se não identificados nesta fase, os distúrbios podem provocar, no adulto, transtornos ansiosos, dificuldade sociais e maior envolvimento com acidentes de trânsito, explica a neuropsicóloga Maria Alésia Silva de Calasans, que atua na área há 15 anos. 
 
Graduada em psicologia pela Unip (Universidade Paulista de Araçatuba) e com pós graduação em neuropsicologia pela USP (Universidade de São Paulo), em 2005, se especializou em terapia cognitiva comportamental pela Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto). Em entrevista à Folha da Região, ela fala da importância do acompanhamento com um especialista.
 
O que é o TDAH?
TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade é uma síndrome neuropsiquiátrica que pode afetar a atenção – sustentada, seletiva e alternada e causar hiperatividade/impulsividade.
Este transtorno pode ocorrer de três maneiras:
· TDAH com predomínio de déficit de atenção - na qual o indivíduo apresenta o déficit de atenção, mas não apresenta a hiperatividade. Esta forma de manifestação, segundo alguns pesquisadores, afeta mais o sexo feminino, e está mais relacionada às dificuldades de aprendizagem escolar.
· TDAH com predomínio de hiperatividade/impulsividade – na qual o indivíduo apresenta mais comportamentos hiperativos e impulsivos, porém, é capaz de manter um nível de atenção adequado. Esta forma de manifestação, segundo alguns autores, afeta mais o sexo masculino e está menos relacionada às queixas de dificuldades escolares e mais relacionada às queixas de dificuldades de relacionamento social.
· TDAH do tipo combinado – nesta forma de manifestação, tanto a atenção está prejudicada, quanto o comportamento hiperativo ocorre. É mais diagnosticada nos meninos e tanto queixas relacionadas à aprendizagem quanto ao comportamento social, ocorrem.
 
Como é o diagnóstico de TDAH?
O diagnóstico de TDAH é clínico. Não existem exames físicos (exames de imagem, eletroencefalograma ou exames de sangue) que o acusem. Os neurologistas e psiquiatras solicitam uma avaliação neuropsicológica, na qual são levados em conta aspectos cognitivos (eficiência intelectual, atenção, memória, resolução de problemas, entre outros) relevantes para o diagnóstico.
 
Quando uma criança só demonstra dificuldade de se concentrar em uma situação, por exemplo, na escola, pode ser TDAH?
Não é possível se afirmar, pois, existem critérios diagnósticos claros. O Manual Estatístico de Doenças Mentais 5ª edição (sigla em inglês DSM - 5) lista 18 sintomas, sendo 9 relacionados à desatenção, 6 à hiperatividade e 3 à impulsividade. Para se fazer um diagnóstico de TDAH, é necessário que pelo menos 6 sintomas destes 18, estejam presentes. Ainda, como critério diagnóstico, é necessário observar se os sintomas estão presentes desde a infância e se manifestam em pelo menos dois ambientes distintos.
 
Existem níveis diferentes da doença? Como distinguir quem tem TDAH de uma criança que é simplesmente muito ativa?
Sim, existem níveis de severidade na manifestação do transtorno, de acordo com o número de sintomas presentes. Uma pessoa pode apresentar 6 dos 18 sintomas, e terá, um nível de dificuldades na vida e outra, pode apresentar os 18 sintomas, com outro nível severidade nos problemas em seu cotidiano. A distinção entre um portador de TDAH e um não portador é feita pelo critério diagnóstico, ou seja, a presença do número de sintomas. É muito importante que esta distinção seja feita, para efeito do tratamento, pois, uma vez que a abordagem terapêutica não esteja adequada, além de ser inócua, ainda atrasaria a abordagem correta para a queixa apresentada pela família e/ou escola. Uma criança simplesmente ativa, a ponto de apresentar uma queixa, talvez precise apenas de uma mudança em seu ambiente.
 
Qual é a diferença entre os medicamentos estimulantes e não estimulantes usados para o tratamento?
A diferença está basicamente na ação sobre os neurotransmissores. As drogas psicoestimulantes, agem sobre o neurotransmissor dopamina, que esta relacionado à motivação, à atenção e ao movimento. As drogas não psicoestimulantes, agem sobre o neurotransmissor noradrenalina, relacionado à sensação de bem estar e atenção.
 
Qual é o mais usado hoje e quais os efeitos colaterais possíveis?
Atualmente, a primeira escolha de tratamento é os psicoestimulantes – Metilfenidato cujos nomes comerciais são a Ritalina e o Concerta e, lisdexanfetamina com nome comercial Venvance. Os efeitos colaterais mais comuns são diminuição do apetite, dificuldades com o sono e irritabilidade. Estes medicamentos são vendidos apenas com receitas médicas controladas.
 
Os medicamentos podem causar dependência química?
Não. A medicação bem empregada com responsabilidade e acompanhamento médico, na verdade, protege a criança e o adolescente de outras dependências químicas que podem ocorrer no TDAH não tratado. A criança vai precisar tomar por toda a vida ou eles podem ser retirados em dias que ela não precisa de concentração (como um fim de semana, por exemplo)? Depende muito do critério médico utilizado. Normalmente, a medicação só é utilizada nos dias de aula, sendo retirada nas férias, feriados e finais de semana. Contudo, existem casos, nos quais o uso medicamentoso pode ser ininterrupto.
 
Caso não seja tratado ainda criança, o problema pode trazer consequências na vida adulta? Quais?
Sim. Existem as comorbidades importantes. Entre elas podemos citar: transtornos ansiosos, transtornos de humor (transtorno bipolar e depressivo), dificuldades de aprendizagem, dificuldade sociais, transtorno desafiador opositivo (infância), transtorno de conduta (adolescentes e adultos), maior envolvimento com substancias ilícitas, maior envolvimento com acidentes de trânsito, maior possibilidade de gravidez na adolescência e dificuldades no trabalho (o índice de dispensa no trabalho entre adultos portadores de TDAH não tratados, é mais alto do que entre os tratados).
 
Há alguma pesquisa específica sobre isso?
Sim, muitas. As universidades estão bastante empenhadas, tanto nas pesquisas para instrumentos neuropsicológicos de avaliação validados para a nossa população brasileira, quanto para as abordagens de tratamento, pois, um contratempo muito grande que os neuropsicólogos enfrentam, é a escassez de instrumentos para a nossa população, o que, representa uma das dificuldades mais importantes destes profissionais na contribuição para o diagnóstico.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.365301