Maxwell Borges de Moura Vieira é diretor-presidente do Detran-SP

Segurança no trânsito: prioridade nacional, por Maxwell Vieira

“O tempo não cura, apenas ajuda no treino de como conviver com uma dor que não tem nome.” Gladys Ajzenberg definiu assim a sensação de perder o filho para um mal que mata 40 mil pessoas por ano no Brasil, mais de cem por dia: desastres no trânsito. Eles estão entre as dez principais causas de morte no País.
 
Gladys é mãe de Vitor Gurman, jovem atropelado na Vila Madalena, em São Paulo, em 2011. A tragédia voltou à mídia por causa da decisão do Tribunal de Justiça de não levar o caso a júri popular. A acusação mudou de homicídio doloso, no qual se assume o risco de matar, para homicídio culposo de trânsito, sem intenção de matar. A motorista é acusada de dirigir alcoolizada, em alta velocidade e atingir Vitor na calçada.
 
Para além do desfecho jurídico desse caso, seu aspecto central e inapelável continua merecendo a atenção das autoridades e, principalmente, da sociedade: as atitudes de risco no trânsito levam a tragédias. Ainda não amadureceu em parcela significativa da população a noção de que casos como o de Vitor não são meros acidentes, mas resultado direto da conduta imprudente dos motoristas. Segundo o Infosiga SP, banco de dados do governo de São Paulo, 94% das ocorrências com mortes são causadas por falha humana, como beber e dirigir.
 
Inspirado na Década de Ação pela Segurança no Trânsito das Nações Unidas, o governador Geraldo Alckmin lançou em 2015 o Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, do qual o Detran-SP é integrante. O principal objetivo é reduzir à metade as mortes no trânsito do Estado até 2020. 
 
Duas ferramentas criadas para contribuir com essa meta já estão em uso: o Infosiga SP, que contabiliza mensalmente as mortes nos municípios paulistas, com perfil de ocorrência, vítima e frota; e o Infomapa, sistema de georreferenciamento de casos com óbitos. Convênios foram firmados com 67 cidades com altos índices de mortes no trânsito e serão repassados pelo Detran-SP R$ 110 milhões provenientes de multas para projetos de segurança viária.
 
Mas um dos principais focos do Detran-SP hoje é a educação. Projetos e campanhas são mantidos para reforçar as mensagens sobre comportamentos de risco. Nas redes sociais, o Detran-SP dialoga com a sociedade alertando anônimos e celebridades flagrados cometendo infrações. A ideia não é constranger, mas orientar sobre a importância da atenção máxima ao dirigir.
 
Com o programa Clube do Bem-te-vi, policiais militares ministram palestras em escolas municipais sobre boas práticas no trânsito para alunos de 6 a 11 anos. Resultados dos esforços começaram a aparecer nas estatísticas paulistas. De 2015 a 2017, as mortes no trânsito caíram 7,5%. Outras unidades da Federação também implementaram iniciativas interessantes, mas, nacionalmente, os avanços permanecem tímidos.
 
A recente aprovação pela Câmara dos Deputados de um plano nacional é o primeiro passo. De fato, faltava assumir um compromisso envolvendo todo o Brasil. Batizado como Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões de Trânsito, o projeto prevê metas estaduais, com objetivo geral de reduzir à metade o número de óbitos em dez anos. A meta é (e precisa ser) ambiciosa.
 
Nações que diminuíram seus índices, como Japão, Suécia, Dinamarca e Reino Unido, mantêm planos nacionais, com metas e estratégias de acompanhamento. O plano aprovado pelo Congresso é um bom caminho. São Paulo já introduziu ações que se mostraram bem-sucedidas e está disposto a compartilhá-las e a aprender com outras experiências para acelerar o processo de transformação dessa gravíssima realidade.
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