Rosana Amado Gaspar é contadora e dirigente da USE (União das Sociedades Espíritas) do Estado de São Paulo. Descreve esta Face Espírita/10 Anos de Folha da Região para publicação exclusiva

Rosana Amado Gaspar: Amai os vossos inimigos...

"Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos." (Mateus 5:44-45).
 
Há quem diga que esta proposta de Jesus seja apenas uma figura de linguagem e que nada de prático possa ter; afirma-se que é impossível amar um inimigo. Isto nos faz pensar que realmente seja muito difícil “amar” alguém que nos fez algum mal.
O certo é que Jesus nada dizia sem ter uma razão, e esta razão deve ter um sentido prático em nossa existência. Quando vemos as “guerras” ou motivos que levam o outro a ter um inimigo, sempre fica mais fácil analisar.
 
No Brasil, por exemplo, existem inúmeras famílias rivais, em conflitos intermináveis desde o período colonial. São os Pires e Camargo em São Paulo, os Montes e Feitosa no Ceará e algumas contemporâneas, como Boiadeiro e Dantas, em Alagoas.
 
A vendeta mais famosa decorre da luta política dos Alencar. Iniciou-se há mais de 300 anos, em 1710, quando os irmãos Alencar, portugueses perseguidos pela Coroa, se instalaram no pé da Serra do Araripe, entre as capitanias do Ceará e de Pernambuco, hoje Exu. A principal divergência foi com a família Sampaio-Saraiva. As disputas levaram as vidas de mais de 40 pessoas somente nas décadas mais recentes.
 
Alguns dos filhos ilustres são o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco; o governador pernambucano Miguel Arraes Alencar; e José de Alencar, autor de “O Guarani”. Não fosse outro dos filhos mais ilustres e amados de Exu, Luiz Gonzaga, esta luta não teria terminado. Devido ao seu sucesso e neutralidade entre as famílias, conseguiu selar um acordo: desde julho de 1981, mais nenhuma morte ocorreu.
 
Em princípio, o mais racional e lógico seria o primeiro ofendido perdoar o ofensor, e pronto: tudo estaria resolvido. Porém, não é tão simples assim, em função do orgulho das partes.
 
O pastor Martin Luther King, prêmio Nobel da Paz em 1964, escreveu um dos mais belos discursos. Ele afirma que o amor aos inimigos – longe de ser uma piedosa imposição de um sonhador utópico – é uma necessidade absoluta para podermos sobreviver. É a chave para a solução dos problemas do nosso mundo.
 
Jesus não é um idealista sem sentido prático; é um realista prático. Aconselha ainda a desenvolver e manter a capacidade de perdoar; sem o perdão não há amor. E a ver no inimigo qualquer coisa de bom, pois ele muitas vezes age pelo medo, orgulho, ignorância, preconceito ou mal-entendido. Apesar disto tudo, a imagem de Deus permanece inefavelmente gravada no seu ser.
 
No Espiritismo temos a Lei de Causa e Efeito: “Todas as nossas ações são submetidas às Leis de Deus; não há nenhuma delas, por mais insignificante que nos pareça, que não possa ser uma violação dessas Leis. Se sofremos as consequências dessa violação, não devemos nos queixar senão de nós mesmos, que nos fazemos, assim, os artífices de nossa felicidade ou de nossa infelicidade futura”. (“O Livro dos Espíritos”, Livro Quarto, Capítulo II, item 964). E a Lei de Reencarnação, que permite conviver com aquele velho inimigo, reencarnado agora como um filho ou neto que voluntariamente amamos.
 
Parece estranho que possamos amar o “inimigo”? Uma dica prática: assista ou reveja o filme “Inimigo Meu” (1985), para se encantar, pelo menos, com o filho do inimigo.
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