Ronaldo Ruiz Galdino é repórter da Folha da Região

Ronaldo Ruiz Galdino: O drama das crianças da olaria

Foram inúmeras reportagens marcantes nesses quase cinco anos trabalhando na Folha da Região. Apesar de ser apaixonado pela editoria de política, a matéria que mais me marcou até hoje foi feita para o caderno Cidades. 

Tudo começou numa noite de sábado, mais precisamente 13 de setembro de 2014, quando a editora-chefe à época, Maira Cibele Miranda, me ligou pedindo para acompanhar o desaparecimento de quatro crianças de uma olaria em Penápolis. 

No final da tarde de 12 de setembro daquele ano, quatro crianças sumiram da olaria localizada no bairro rural Lajeado. Elas teriam sido vistas pela última vez na companhia de homem que morava no local. O fato causou muita comoção na cidade e região. 

No domingo, logo nas primeiras horas da manhã, liguei para o Corpo de Bombeiros de Penápolis, pois me informaram que a polícia trabalhava com a hipótese de afogamento, o que me deixou chateado. Sempre fico triste ao ter que relatar tragédias envolvendo crianças. Afinal, jornalistas também têm coração. Mas, para meu alívio, o bombeiro que me atendeu disse que não estavam fazendo buscas aquáticas. Existia a chance de um final feliz.

Ao chegar à olaria, fiquei impressionado com o estado de pobreza das famílias que trabalhavam no local. Eles sabiam pouco a respeito do suspeito, apenas falaram que ele contava uma história de que vinha do Paraná, ao lado de uma cadelinha. Um arrendatário me mostrou o quarto onde morava o homem, um cenário degradante composto por dois cômodos sem nenhum mobiliário. Apenas sujeira, roupas e vários corotes de pinga espalhados pelo chão.

Um arrendatário me contou que o suspeito havia sido trazido a olaria por um rapaz e foi pegando a confiança dos trabalhadores. Ele tinha permanecido ali, até então, sem causar incômodo. Para conseguir dinheiro, fabricava brinquedos de madeira e viveiros e os vendia para os moradores. O arrendatário comentou comigo que não entendia como uma pessoa que construía objetos com tanto capricho havia chegado aquela situação. 

O dono da olaria negou que o suspeito trabalhava para ele, bem como a informação de que as crianças ajudavam seus pais nos serviços, como algumas pessoas dali me contaram. 

Já passava do meio-dia e eu precisava retornar à redação, em Araçatuba, quando a mãe de uma das crianças gritou que haviam encontrado os dois meninos e as duas meninas. Rapidamente, eu e o motorista Sérgio Prando acompanhamos os carros que seguiram por íngremes estradas de terra até o local onde as crianças teriam sido encontradas. 

Elas apareceram pouco tempo depois de chegarmos. Gritando e chorando, correram até os braços de seus familiares. Foi um momento de muita emoção e precisei segurar as lágrimas para fazer as fotos. As crianças contaram aos pais e jornalistas os momentos de terror que passaram, sendo constantemente ameaçadas, andando a esmo e sentindo fome. 

Alguns homens, armados com paus e tesoura de jardinagem, entraram correndo na mata para procurar o suspeito. Corri ao lado deles, pensando em qual seria minha reação se eles o encontrassem. Felizmente, os "justiceiros" não o acharam. Mais tarde, a polícia prendeu o suspeito, que já era acusado de manter um adolescente em cárcere privado quatro anos antes. 

O caso motivou uma campanha na internet para arrecadar alimentos, roupas e brinquedos para as vítimas e seus familiares. Apesar da história comovente do desaparecimento das crianças, o que mais me chocou foi a condição social de todos os envolvidos no episódio. Não consigo aceitar que, em pleno século 21, em tempos de democracia, na era da tecnologia e das redes sociais, pessoas trabalhem e vivam em situação de pobreza semelhante ao século 19.

VEJA AQUI OUTROS ARTIGOS E REPORTAGENS SOBRE OS 45 ANOS DA FOLHA DA REGIÃO


LINK CURTO: http://tinyurl.com/y9neydkf