Roelf Cruz Rizzolo é professor-adjunto do Departamento de Ciências Básicas da FOA/Unesp de Araçatuba

Roelf Cruz Rizzolo: Humanos, os piores amigos do cão

O que a seleção natural tem feito ao longo de milhões de anos no sentido de adaptar as espécies ao meio, os humanos também fazemos com algumas delas para que se adaptem aos nossos interesses. Plantas como a couve-flor, brócolis, repolho, couve-rábano e outras simplesmente não existiam na natureza e foram criadas por produtores mediante cruzamentos seletivos a partir da mostarda silvestre, uma planta de pouco valor econômico. 

Esta ação humana na seleção de determinadas características de plantas e animais é bem, bem antiga, e ajudou muito Charles Darwin entender os mecanismos que levavam à seleção natural na sua teoria evolutiva. 

O processo pode ser benéfico, embora ao selecionar certas características que nos interessam podem vir junto outras indesejáveis. No caso dos vegetais isso pode ser contornado. Mas em outras situações o processo de seleção artificial chega a ser cruel. É o que acontece com os cães, selecionados artificialmente pelo homem para atender — por vezes — ridículas exigências estéticas. Esses critérios produzem cães que ganham concursos mas provocam neles sofrimento ao longo da sua vida.

O caso dos pastores-alemães é um exemplo disso. Os cruzamentos direcionados dispararam os índices de câncer, artrite e agressão entre outros. A curvatura exagerada das costas que faz com que o quadril fique num nível bem mais baixo que o ombro e que dá tantos pontos nos concursos dessa raça leva à dor, ao sofrimento e à necessidade de, com o tempo, ter que sacrificar o animal porque este simplesmente não pode mais andar. 

De acordo com um artigo publicado na revista científica Canine Genetics and Epidemiology, estes problemas aumentaram quando os cruzamentos deixaram de objetivar características relacionadas com o pastoreio, guarda e guia e priorizaram aspectos puramente estéticos. O Dr. Dan O'Neill, que liderou o estudo, acrescenta que “é apenas uma crença que é essa a forma de um pastor-alemão perfeito”. Ainda, “a decisão de parar de criá-los assim não é apenas dos criadores, mas do público em geral. Se o público se recusar a comprar esses animais, os criadores vão parar de criá-los com essas características”.

E isto não se limita, claro à raça dos pastores-alemães. Pug, Shih Tzu, pequinês, dachshund golden retriever, São Bernardo, basset hound, buldogue, chihuahua, dálmata, dobermann, e tantos outros sofrem problemas que são específicos de cada raça.

E agora, o mea-culpa. Já fiz isso. Já comprei um pastor alemão com essas características. Queria um pastor “puro”. Sem saber, acreditava que estavam criando um pastor mais “pastor”, na acepção positiva do termo. Agora tenho evidências científicas que fiz uma besteira. Meus últimos dois pastores morreram com muito sofrimento. Uma de câncer, o outro foi perdendo a força nas patas traseiras até cair e não levantar mais. 

É isso. Como comentou autor do estudo, cabe ao público parar de contribuir com essa maldade. Devemos lembrar que nosso desejo de ter um cão puro com uma forma determinada que se adapte ao nosso apartamento ou à nossa ideia do que venha ser nosso cão ideal acaba redundando em criar animais que sofrerão por causa desses caprichos tolos. 

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