Rita Lavoyer, de Araçatuba, é membro da União Brasileira de escritores

Rita Lavoyer: Ser Luzia, uma benfeitora

"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina". (Cora Coralina)
 
Agradeço ao jornal Folha da Região pela oportunidade do espaço para homenagear uma amiga. Alguém pode discordar do que apresento, mas se o faço, é porque os pontos positivos da homenageada superaram seus defeitos, e não me interesso saber quais são, e se os tem, como todos nós, não prejudicam quem convive com ela. Por isso, como tantos anônimos benfeitores, ela merece a graça do reconhecimento.
 
Ela não entrou na minha vida por acaso e tornou-se importante para mim no sentido de registrar-se em um determinado período da minha existência que o tempo não é capaz de apagar. Abraçou comigo as minhas causas, pegou-me as mãos e não fraquejou em seus passos, ajudando-me com materiais e pesquisas que contribuíram nas conclusões dos meus trabalhos: sonhos que eu queria realizados. 
 
Há folhas que nascem, desenvolvem, cada qual respeitando o seu ciclo; enfeitam as árvores, fortalecendo-as para suportarem o parto dos frutos, até o tempo de um vento forte levá-las para juntarem-se ao outro grupo, o de adubação. Ali, no amontoado de tantas outras folhas levadas pelos ventos, serão alimentos para matar a fome da terra. Todos, como as folhas, exercemos funções importantes no meio em que vivemos. Ela é assim, o conjunto desse ciclo, por isso sua importante na vida de muitas pessoas. 
 
Eu a conheci quando lecionamos em uma escola estadual. Espelhava-me nela, nas aulas dela, nos trabalhos que ela desenvolvia. Eu era iniciante no magistério; ela, experiente. Como os rios confiam-se ao mar, eu confiei na Luzia e ela ajudou-me pelo prazer de ser útil. Acompanhei um longo e difícil período da vida dessa mulher, filha, irmã e, principalmente, mãe!
 
Igualávamos nas nossas dificuldades de toda ordem, inclusive a financeira. Sem carro, corríamos juntas de uma escola a outra. Com filha ainda pequena, confiando à mãe, dona Áurea, o cuidado da sua proteção para lecionar. 
 
Vi a Luzia, no trabalho, por sua estirpe, engolir petulâncias a seco, sem revidar e também a assisti ensinando que a natureza de cada ser precisa ser lapidada para alcançar o processo normal de evolução. Assim escreveu a sua história, com muito respeito e honra à profissão que ela tão bem sabe exercer. Com isso proveu o sustento da família, pois foi pai e mãe da sua filha. Não enriqueceu. Hoje, com a filha criada, vive uma situação mais remediada que outrora. 
 
Conhecendo sua história e os fardos que carregou para chegar digna até aqui, e ler essas simples linhas que lhas ofereço, quero que muitas pessoas, que não a conhecem, saibam quão boa e generosa é Luzia Machado. Tenho o dever de apresentá-la como os meus olhos e o meu coração a veem, porque ela só registrou passagens boas em mim. 
 
Luzia, como tantas Luzias, ultrapassou o limite da sua era. Venceu e vence obstáculos. Mulher de raça, que eu sei que ela é, vencerá outros tantos. Centrada, cristã fervorosa, fã de Literatura e admiradora de Cora Coralina, ela é uma das que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Honra-me fazer parte do círculo de amigos que ela convidou para repartir a sua trajetória. 
 
Na minha, na sua família e na dos seus amigos, você, Luzia Machado, não será apenas folha passada, levada pelo tempo. Você é história porque é benfeitora. Minha gratidão a essa amiga que me chama a atenção, me corrige e, comigo, está sempre aceitando novos desafios. E você? Tem um algum benfeitor que deseja homenagear? Por que não fez isso ainda? 
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