Rita Lavoyer, de Araçatuba, é membro da União Brasileira de escritores

Rita Lavoyer: Aos policiais

Não deveriam ler um texto sobre morte. Por isso, peço-lhes perdão, mas o escrevi por ter muitos policiais a chorar. Gostaria de compor uma Ode a eles, meus escritos seriam mais brandos, belos e até bajuladores. Mas não! Embora os policiais sejam merecedores de epopeias, hoje, faço-lhes uma prosa com o tom da elegia. Por isso minhas palavras escorrem como sangue. Aqui, elas não terão outra cor, uma vez que a realidade sobre a segurança, em todas as partes, compele-nos a meditar quanto a nossa cooperação para com esses benfeitores que, com seus dons, nos protegem a todos. 
 
Será um dom? Pode, numa relação desigual de poder existir mais fuzis nas mãos de malfeitores que viaturas, armamentos e policiais para vencerem os crimes sem que esses Humanos não contassem com recursos Divinos? Que nome dar ao sacrifício dos policiais que fazem da sua vida o escudo protetor para o seu próximo? Coragem? 
 
Clamamos por segurança. Queremos todos, das mais variadas patentes, a nosso favor, porque são eles, os policiais civis e militares, que ganham para isso. Que sejam heróis então! Deveria existir cemitério para heróis. Que tolice! Heróis não morrem! Só o homem morre. Policiais morrem! policial morto serve pra quê? Só para dar ibope nas páginas e canais de terror policial? 
 
Não há páginas, nem canais que divulgam os medos, as angustias, as frustrações, as necessidades, as ações humanitárias dos policiais! Não precisam? Os brutos não choram, não riem? Não! Porque os barulhos das bombas que eles têm que enfrentar não são maiores que o silencioso grito que aperta do policial a jugular. Ao policial compete-lhe desativar suas bombas no próprio peito, sem alardes. 
 
Um policial morto é um cadáver a mais no cemitério; é um filho a menos para o conforto dos pais. Um policial morto é um número a mais nas estatísticas do crime; é um pai a menos para auxiliar os filhos. Um policial morto é um ganho a mais para o bandido; é um funcionário a menos na folha de pagamento. 
 
Um policial morto é um discurso a mais para o político; é um irmão a menos para os diálogos. Um policial morto é um sarcasmo a mais para o traficante; é um companheiro a menos na corporação. Um policial morto é um choro a mais no leito do cônjuge; é uma esperança a menos para um futuro melhor. Um policial morto é uma vela a mais que se queima, é uma sociedade a menos com segurança. 
 
Tudo isso e muito mais é possível com a morte de um policial que recebe homenagens que ele não vê, nem ouve mais. E a sua família, policial? E a sua família? Depois ela recebe o auxílio funeral que não supre a sua ausência e, ainda, como recompensa dão-lhe uma medalha. 
 
É cruel demais esperar que um policial morra para homenageá-lo depois. O corpo do falecido não sente, não vê e nem ouve mais as palavras dos discursos a seu favor. Ele quer, precisa de silêncio para usufruir da segurança que sempre mereceu. Mas se fosse possível consultar-lhe as entranhas, ali, onde suas bombas foram desativadas, a sua voz, talvez, profetizaria o futuro e nos responderia a pergunta: qual é o nosso futuro, policial, sem a graça da sua proteção? 
 
Sem respostas, cumpre-nos continuarmos acreditando que infinita é a bondade de Deus, mas algo a mais deve surgir de nós, a nosso favor e nossa proteção, porque os policiais, esses seres humanos que não trazem os coletes da onipotência, estão sendo alvejados covardemente e morrendo por nós. 
 
Deixo o meu silêncio e a minha vergonha por não valorizar a contento este profissional de quem tanto precisamos: O policial. Este, que por amor à farda, à profissão e em respeito ao seu juramento, tem dado a vida pelo irmão. Isso não é ter dom. Isso é ser Divino. 
 
Rita de Cássia Zuim Lavoyer é membro da UBE (União Brasileira de Escritores).
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