Rafaela Tavares é repórter da Folha da Região

Rafaela Tavares: Histórias marcantes

A partir do momento em que me tornei repórter, eu sabia que, ao cruzar os corredores da sede do jornal, não teria certeza de como o dia desenrolaria. Sim, há pautas que discutimos antes com editores e sabemos que, possivelmente, teremos que cobrir tal assunto em determinada data. Apesar desse preparo, o jornalismo trabalha com o fator do imprevisto.

Foi assim em 15 de novembro de 2015. Eu comecei a rotina da redação pronta para apurar dados sobre o volume de exportações da região até novembro daquele ano, um assunto de importância econômica, porém corriqueiro, no sentido de que já estava acostumada a acompanhar as movimentações da balança comercial todos os meses. Ainda na manhã, o fotógrafo Alexandre Souza recebeu mensagem de uma fonte avisando que agentes da Polícia Federal cumpriam mandados de busca e apreensão no Estaleiro Rio Tietê, em Araçatuba. 

LAVA JATO
As investigações relacionadas à Operação Lava Jato chegavam à região. A PF e o Ministério Público Federal promoviam ações de uma fase das operações chamada de Operação Catilinárias. Araçatuba entrou no mapa das atividades porque um de seus alvos era a Estre Ambiental, grupo que era um dos controladores do estaleiro. Os mandados foram expedidos pelo então ministro Teori Zavascki, do STF (Supremo Tribunal Federal), para busca e apreensão de evidências nas sedes do empreendimento de indústria naval e no escritório da empresa localizada na região de Campinas, além de outros pontos do País. O objetivo era preservar provas importantes antes que fossem destruídas pelos investigados. 

A Operação Lava Jato era (e ainda é) um assunto recorrente no noticiário nacional. De repente, Araçatuba estava inserida no mapa das investigações sobre o esquema de corrupção que teria movimentado bilhões em propina. 

Pelo horário em que recebemos aviso sobre a presença da PF no estaleiro, eu era a única repórterna redação. Por isso, deixei de lado a apuração que havia começado a fazer sobre comércio exterior e acompanhei o fotógrafo até o local do empreendimento. 

Circulamos em torno da sede do estaleiro tentando verificar movimentações diferentes, conversando com trabalhadores sobre a passagem de viaturas e agentes e observando que apesar da operação, as atividades de construção das barcaças ficaram inalteradas. Também consultei a Superintendência da Polícia Federal em São Paulo para informações sobre a ação. A apuração, com ares de jornalismo investigativo, foi especialmente marcante para mim, que havia concluído o curso de Comunicação Social havia menos de um ano. O assunto rendeu uma matéria para o portal publicada na mesma data e uma cobertura na edição impressa do dia seguinte.

PAIS E FILHO
A outra reportagem que deixou uma forte impressão para mim mostra fatos totalmente diferentes dos da Operação Catilinárias. Em janeiro de 2017, tive o privilégio de ouvir a história de Enzo Parladore, 18 anos, e sua família, que vivem em Penápolis. O jovem tem uma doença degenerativa chamada de amiotrofia espinhal tipo 1, que debilita os músculos que sustentam os músculos e, segundo os médicos que a diagnosticaram, o impediria de falar. A mãe de Enzo, Renata Cortez Parladore, desenvolveu um método de comunicação alternativa que permite ao filho se comunicar usando expressões faciais para sinalizar letras e números.

Durante a visita à casa dos três, os pais relataram detalhes da história do filho, mostraram como funcionava o sistema de códigos e me apresentaram a Enzo, que, com rápidas movimentações do semblante, formou frases com as quais ele nos cumprimentou e demonstrou interesse especial pela câmera da nossa equipe.

O afeto, o bom humor e o comprometimento que os três demonstraram um pelo outro eram tocantes. Se não fosse o conhecimento profundo que Renata tinha das expressões do filho, sua confiança na capacidade dele, a criatividade da família e o esforço do próprio Enzo em assimilar o método, ele estaria condenado ao isolamento. Hoje, ele transmite com desenvoltura ideias, vontades, necessidades, aborrecimentos e sentimentos. 

O jornalismo tem uma função social importante, de informar a população sobre investigações de casos como os desvendados pela Operação Lava Jato. Contudo, outra face igualmente fundamental da atividade é apresentar aos leitores histórias que mostram o lado mais bonito da humanidade, como a que fiz o possível para contar em matéria publicada em 22 de janeiro, um lado que também não pode ser esquecido ou ignorado.

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