Quando só mudar o nome não basta

Mudam-se os nomes dos partidos, menos os quadros e o modo de fazer política

No momento em que enfrentam forte descrédito perante a população, partidos políticos brasileiros acreditam que, simplesmente trocando seus nomes, conseguirão estancar os efeitos da crise de credibilidade. Em todos os casos, a tática consiste na retirada da palavra “partido” do nome da legenda. No lugar, entram denominações que inspiram confiança, liberdade, democracia e crença em um futuro melhor. 

Daí, o fato de o PTN ter virado “Podemos”; o PTdoB, “Avante”; e o PSL, “Livres”, dentre outros exemplos. O fenômeno atinge até mesmo siglas recém-criadas. O PEN, do deputado federal Jair Bolsonaro (RJ), contra quem pesam acusações homofóbicas e racistas, quer virar “Patriotas”. Partidos criados nos últimos anos já nasceram seguindo essa tendência. Assim foi o Solidariedade e a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva (AC). A estratégia tem um contraponto. Mudam-se os nomes, menos os quadros e o modo de fazer política. 

O maior exemplo disso está justamente na agremiação que, há dez anos, iniciou esse movimento. Historicamente ligado aos grupos mais conservadores da política brasileira, o PFL (Partido da Frente Liberal) passou a se chamar Democratas em 2007. A substituição não foi suficiente para evitar o envolvimento de seus caciques em escândalos. 

Logo em 2010, com os desdobramentos do chamado “Mensalão do DEM”, o então governador do Distrito Federal José Roberto Arruda chegou a ser preso. Dois anos depois, o então senador democrata Demóstenes Torres foi cassado por quebra de decoro parlamentar. E não basta ir longe para constatar casos do tipo. Em 2008, na região, dois prefeitos pelo DEM foram cassados — Jorge Maluly Netto, já falecido, em Araçatuba; e Elias Ferreira, em Coroados. 

Mudar de nome, portanto, soa como uma jogada de marketing das agremiações partidárias a fim de se manterem na cena política. Não são muitos os caminhos para que haja uma renovação e, assim, os partidos passem a melhorar suas imagens diante da população. 

Tudo passa pela honestidade de seus líderes e compromisso com a população. Daí, será possível a apresentação à sociedade de candidatos comprometidos com a causa pública em vez de profissionais da política. Ou seja, nomes novos. E ainda: os próprios deputados aprovarem uma reforma política de verdade, que coíba o fisiologismo e imponha tolerância zero à corrupção.

Pode parecer utopia, mas a saída é essa. A forma republicana de governo é composta por representantes de partidos políticos. Isso não muda, por mais que seus representantes tentem impor uma maquiagem.

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