Juarez Paes é chefe de cozinha em Araçatuba

Por que D. Pedro 1º foi curto e grosso às margens do Ipiranga? A gastronomia explica

Aprenda a fazer brandade de bacalhau

Quase dois séculos após o famoso grito de independência às margens do Ipiranga, o Brasil volta a ter a necessidade urgente de uma segunda edição do brado de liberdade (quem sabe as margens do “Posto Ipiranga”), desta vez, da podridão que nos assola e nos mantém no cárcere privado da corrupção e desmandos impostos pelos três poderes que deveriam zelar pela sua manutenção. 

Enquanto isso não acontece, achei a data apropriada e não resisti a uma segunda edição desta história que contei há quase dez anos:

“Pelo meu sangue, pela minha honra e pelo meu Deus, juro fazer a independência do Brasil... A partir de agora, estão cortados os laços que nos unem a Portugal! Independência ou morte! Independência ou morte!”. Assim, D. Pedro 1º, de forma rápida e objetiva, decretou a quebra definitiva dos vínculos que nos uniam a Portugal.

Qual foi a razão de tanta pressa, na hora de sacramentar o ato que nos libertaria definitivamente do jugo da corte lusitana?

a) o conteúdo da carta enviada por José Bonifácio; b) os fortes rumores de conspiração por parte das províncias do norte; c) o orgulho ferido pelas ofensas à sua pessoa, por parte da alta burguesia da corte portuguesa; d) uma forte diarreia, que o acometera após o jantar que antecedeu sua partida de Santos; e) todas as anteriores estão corretas.

A resposta correta é a “e”; entretanto, a que motivou a ausência de um discurso mais longo e inflamado, foi, com certeza, a afirmação da alternativa “d”.

É aí que a gastronomia entra na história depois de muita pesquisa e investigação para tentar descobrir a origem do turbilhão de cólicas, gases e deságues que por pouco não desidratou nosso primeiro Imperador (o terceiro foi o Adriano), consegui deduzir que a mistura de várias guloseimas, acepipes e preparos ricos em temperos e carnes fortes foram os responsáveis diretos pela rapidez do ato que decretou a Independência do Brasil.

O que pude apurar sobre o cardápio do jantar oferecido ao até então príncipe regente pela burguesia da província de Santos foi o seguinte:

Entradas: - Sopa de barbatanas com mariscos e camarões; - Punhetinhas de bacalhau (bacalhau aferventado em lascas, com cebolas ao vinho tinto em rodelas, azeitonas portuguesas e muito azeite); - Ovas grelhadas, em cama de cebola e ovos.

Principais: -Frangos à D. João VI (frangos assados inteiros); -Brandade de bacalhau (receita de hoje); - Tripas com favas brancas (dobradinha com feijão branco); - Leitão assado (pururuca).

Sobremesas: - Brevidades em claras de neve; - Compota de jaca; - Quindim; - Creme de pitangas.

Assim como a maioria de vocês, também fui pego de surpresa com tal descoberta, já que o meu primeiro intuito era descobrir o que D. Pedro 1º comeu depois de ter proclamado a Independência do Brasil, para, a partir daí, desenvolver o texto do artigo. 

Quando busquei os acontecimentos que sucederam “O Grito do Ipiranga”, para chegar ao meu objetivo que era o cardápio pós-independência para o jantar oferecido pelo brigadeiro Jordão e o capitão Antônio da Silva Prado, em São Paulo, local para onde seguiu o novo Imperador do Brasil em seguida ao ato, acabei surpreendido pelo fato de D. Pedro ter comido apenas duas maçãs e uma xícara de chá de hortelã durante todo o jantar depois de uma viagem tão desgastante, e foi então que resolvi retroagir na história para tentar encontrar as razões que levaram o nosso imperador paladino a ingerir tão parca refeição, chegando aos fatos relatados acima. 

Não só eu, como a maioria de vocês, aprendeu no primário (ensino fundamental) que tinha dado a maior "m..." lá em Portugal e que o senhor ministro José Bonifácio jogou ainda mais "b..." no ventilador (que nem existia), através da carta enviada e recebida por D. Pedro 1º às margens do rio Ipiranga, mas, não que toda aquela outra "m..." tivesse sido tão preponderante e decisiva para o ato de Independência do Brasil.

Moral da história: a Gastronomia foi a principal responsável apressar ("colocar uma pilha") o brado do Ipiranga, "Independência ou morte! Independência ou morte!". D. Pedro ainda pensou em gritar pela terceira vez, mas achou prudente não arriscar.

Brandade de bacalhau

Você vai precisar de: 
- 700g de postas de bacalhau demolhado 36h; 
- 3 colheres de sopa de azeite; 
- ½ xícara de chá de leite; 
- suco de 1 limão; 
- 1 dente de alho amassado; 
- noz moscada a gosto; 
- salsa picadinha a gosto; 
- 3 ovos cozidos; 
- fatias de pão torrado com manteiga ou pão italiano com manteiga; 
- Sal e pimenta calabresa qb.

Preparo: Numa panela, aqueça água e cozinhe o bacalhau. Escorra-o, desfie-o bem e deposite numa refratária funda. Aqueça o azeite e o leite em panelas separadas. Em seguida, vá juntando-os alternadamente ao bacalhau, mexendo bem com a colher grande, para esmagar o bacalhau desfiado. Para dar mais cremosidade à mistura, enquanto mexe, vá temperando com o suco do limão, o alho e a noz moscada. Arrume as torradas ou fatias de pão italiano no fundo de uma refratária, e espalhe a Brandade por cima. Decore com rodelas de ovos e salsinha picadinha.

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'GASTRONOMIA'
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