Fabiani Honorato: Existem mais de 300 diferentes tipos e causas descritos

Por dentro da dor de cabeça

É preciso ficar atento à frequência com que acontece

A cena é clássica: o indivíduo começa a se comportar de maneira diferente. O incômodo é tão forte que a única solução parece ser escapar desse ambiente e esperar a dor passar. Ela pode ser pulsátil, unilateral, de forma moderada ou até mais grave. Noventa e cinco por cento das pessoas têm ou terão um episódio de dor de cabeça no decorrer da vida. É preciso ficar atento à frequência com que esses episódios acontecem. Podem estar ligados a problemas mais graves de saúde. 
 
Em entrevista à Folha da Região, a especialista Fabiani Honorato, formada em medicina pela UFMS (Universidade Federal do Mato do Sul), com residência em neurologia e neurofisiologia pela Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), além de título de especialista em neurologia pela ABN (Academia Brasileira de Neurologia), explica quais fatores podem agravar este problema. 
 
O que é a dor de cabeça?
O termo “dor de cabeça”, ou cefaleia, aplica-se a todo processo doloroso no segmento cefálico, o qual pode se originar em qualquer das estruturas faciais ou cranianas. É uma das queixas mais comuns nos consultórios de clínica médica e o diagnóstico mais frequente nos ambulatórios de neurologia geral. Admite-se que pelo menos 95% das pessoas têm ou terão um episódio de dor de cabeça ao longo da vida.
 
Quais são os tipos de dores de cabeça que existem? 
Existem mais de 300 diferentes tipos e causas de cefaleia descritos. As cefaleias são classificadas como primárias, quando a cefaléia “é a própria doença”, e secundárias, quando são causadas por outra doença subjacente, sendo, nestes casos, somente um sintoma que surge em consequência de uma agressão ao organismo (por exemplo, cefaleia atribuída a traumatismo craniano, infecção, sinusite, perturbações psiquiátricas, etc).
Entre as cefaleias primárias os tipos mais comuns são a cefaleia do tipo tensão e a enxaqueca. A cefaleia do tipo tensão manifesta-se em episódios de dor de caráter contínuo, não pulsátil, referida como pressão ou aperto, com intensidade variando de grau leve a moderado, localização variável, envolvendo as regiões frontal, temporal occipital e parietal, de modo isolado ou combinado, podendo mudar de localização no decorrer de uma crise. A enxaqueca é uma cefaleia que se apresenta com episódios de dor de cabeça de localização unilateral, pulsátil, intensidade moderada ou grave, piora com atividade física de rotina e pode estar associada a náuseas e/oufotofobia (aversão à luz) e fonofobia (aversão aos sons, barulho).
 
Que tipo de fatores podem influenciar a dor de cabeça?
Entre os principais fatores desencadeantes das cefaleias primárias, destacam-se: problemas emocionais (ansiedade ou depressão), modificação do ciclo vigília-sono (excesso ou privação do sono), ingestão de bebidas alcoólicas (particularmente de vinho tinto), ingestão de determinados alimentos (chocolate, certos tipos de queijos defumados), jejum prolongado, exposição a odores fortes e penetrantes ou a estímulos luminosos intensos e/ou intermitentes.
 
Dor de cabeça com frequencia pode ser sinal de alerta a problemas mais graves?
Sim. Uma cefaleia persistente indica que existe alguma perturbação constante no organismo que deve ser diagnosticada e tratada. Porém, além da frequência da dor de cabeça, outros fatores devem servir como sinais de alerta para um possível problema mais grave. São eles: dor de forte intensidade (pior cefaléia da vida), mudança no padrão da dor habitual, início súbito e/ou recente, dor desencadeada por esforço físico e atividade sexual, dor de evolução progressiva, presença de febre, distúrbios da consciência, descarga nasal purulenta, queixas visuais, entre outros.
 
Qual a diferença entre a enxaqueca e a dor de cabeça normal?
Sentir dor nunca é normal. Toda dor de cabeça é causada por algum motivo e merece atenção. A intensidade, localização e tipo da dor de cabeça variam de acordo com sua causa. A enxaqueca é uma das cefaléias primárias mais comuns e incapacitantes, com características e critérios diagnósticos bem definidos. Trata-se de dor de cabeça recorrente que surge em episódios com duração entre quatro e 72 horas. Para o diagnóstico, é necessário que ocorram pelo menos cinco episódios preenchendo os critérios abaixo:

1 - Episódios de cefaleia com duração de quatro a 72 horas (não tratada ou tratada sem sucesso);

2 - A cefaleia tem, pelo menos, duas das quatro seguintes:
- unilateral
- pulsátil
- dor moderada ou grave
- piora com atividade física de rotina ou faz com que a pessoa evite estas atividades (por exemplo caminhar ou subir escadas)

3 - Durante a cefaleia, pelo menos, um dos seguintes:
- náuseas e/ou vômitos
- fotofobia e fonofobia

4 - Não melhor explicada por outro diagnóstico.
De 10% a 15% dos casos podem ocorrer ainda sintomas neurológicos conhecidos como “aura”, que podem ocorrer antes ou durante as crises de enxaqueca. São sintomas visuais, sensitivos, alterações de fala, alterações motoras (fraqueza em um lado do corpo) que são totalmente reversíveis. A duração habitual da aura é de cinco a 20 minutos, mas pode chegar até a 60 minutos. Excepcionalmente, a aura é prolongada, com duração superior a 60 minutos.
 
Essas dores podem estar associadas a outros fatores? Como tosse, estresse, etc.?
Sim. Entre os diversos tipos de cefaleia secundária, encontramos os seguintes grupos bem definidos: cefaleia atribuída à traumatismo da cabeça e/ou pescoço; cefaleia atribuída à perturbação vascular craniana ou cervical; cefaleia atribuída à perturbação intracraniana não vascular; cefaleia atribuída às substâncias ou à sua privação; cefaleia atribuída à infecção; cefaleia atribuída à perturbação da homeostasia; cefaleia ou dor facial atribuída à perturbação do crânio, pescoço, olhos, ouvidos, nariz, seios peri-nasais, dentes, boca ou outras estruturas cranianas ou faciais e a cefaleia atribuída à perturbação psiquiátrica.
 
Condições climáticas podem agravar as dores de cabeça?
Depende do tipo de dor de cabeça. As evidências científicas para os fatores climáticos como desencadeantes de crises de enxaqueca não são conclusivas, de acordo com a revisão da literatura mundial. Já em relação à cefaleia do tipo tensão, alterações climáticas com quedas bruscas de temperatura são cogitadas como possíveis causas de piora, devido ao aumento generalizado da tensão muscular resultante das baixas temperaturas, associado a uma menor ingestão hídrica, comum em períodos mais frios. Algumas cefaleias secundárias podem ter sua frequência influenciada pelo clima, como, por exemplo, a cefaleia atribuída à rinossinusite, condição que se agrava com maior frequência durante o inverno.
 
Quando o paciente deve procurar um especialista?
O paciente deve procurar um especialista com urgência assim que identificar qualquer um dos possíveis sinais de alerta citados acima ou quando o quadro de dor for recorrente ou persistente a ponto de trazer prejuízo para suas atividades de vida diária. Uma avaliação adequada sobre as características da dor e exame físico detalhado podem identificar a causa do problema para que se inicie prontamente o tratamento mais adequado para cada caso.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.358557