População (des)armada

O que não se esperava era que tal medida fosse armar, ainda mais, a bandidagem

A eterna guerra entre os opostos ocorre em todos os campos. Não poderia ser diferente com a polêmica da política do desarmamento no Brasil, que aconteceu em 2003, após consulta popular para ajudar na tomada de decisão do governo. 

A maioria da população entendia, à época, que a proibição do porte de arma pela população civil em geral, ressalvadas algumas exceções, contribuiria para a diminuição da violência. O que não se esperava era que tal medida fosse armar, ainda mais, a bandidagem.

Tirando aqueles que entendem que tudo deve ser resolvido “na bala”, após o sentimento de aparente redução da criminalidade, o cidadão comum começou a se deparar com outros problemas: as armas roubadas e contrabandeadas que assolam o mercado brasileiro, um prato cheio para os fora da lei. 

Armas adulteradas, com numeração raspada, incluindo armamento de uso exclusivo das forças armadas, continuam circulando livremente, por ironia do destino, do lado oposto ao da população, que aprovou o desarmamento. 

Em Araçatuba, há pouco menos de um mês, um menor foi apreendido com uma arma com numeração raspada em plena praça João Pessoa (500 anos), no centro da cidade, ao lado de uma das escolas mais tradicionais do município. Tal praça está, cada vez mais, condenada por ter se tornado ponto de venda e utilização de entorpecentes e bebidas alcoólicas. O local ainda vive cheio de famílias que a frequentam em busca de lazer e diversão.

Nos Estados Unidos, o atirador da Flórida utilizou um fuzil AR-15, de uso exclusivo das Forças Armadas, de procedência ilícita, para adentrar à escola, assassinar 17 civis, entre estudantes, professores e funcionários, e, em seguida, sair para comer um lanche, como se nada tivesse acontecido. 

A paralisação popular contra a venda livre de armas vai de encontro aos inúmeros massacres que ocorrem no País já há alguns anos. Diferentemente do Brasil, em todos os outros casos de violência com o uso de armas, foram compradas de maneira legal. O episódio da Flórida é um caso isolado dentre tantos que mobilizaram a população.

Embora os políticos americanos não queiram abrir mão do financiamento de suas campanhas pela indústria das armas de fogo, a pressão popular fará com que o tema entre em discussão. Entretanto, diferentemente do que ocorre no Brasil, a população americana tem o direito de se armar, legalmente. 

Aqui em terras tupiniquins, portar arma era crime quase tão grave quanto traficar, pois o Estatuto do Desarmamento trazia, em seu corpo, que tratava-se de crime inafiançável, punido com pena de detenção. Tal sanção foi derrubada pelo STF.

Fato mais do que preocupante é que os bandidos continuam fortemente armados e “protegidos” contra a polícia e para enfrentar os perigosos e desarmados cidadãos de bem. 

A grande diferença entre EUA e Brasil no caso das armas de fogo? O fato de que o sistema penal e de controle do tráfico nos EUA é muito mais eficiente do que por aqui. Seria um avanço, muito grande, poder ter a tranquilidade de que, mesmo desarmada, a população estivesse mais segura. 

Entretanto, levando em consideração de que as chances de um bandido encontrar um cidadão de bem armado são mínimas, eles deitam e rolam nos assaltos a residências. O problema não está nas leis, mas na fragilidade do sistema.

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