Política, poder financeiro e crime

Episódio denunciado em Araçatuba ilustra caso clássico de corrupção na gestão pública

A denúncia apresentada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), que aponta fraude em licitação para compra de armários deslizantes para a Câmara de Araçatuba, retrata um caso clássico de corrupção nas administrações públicas. É o favorecimento em licitação a empresas que dão apoio eleitoral a determinado político. De casos como esses, o País está cheio. Ocorre que, desta vez, envolve um dos políticos mais influentes da cidade nos últimos anos.

De acordo com a denúncia do órgão investigador, o vereador Cido Saraiva (PMDB) recebeu propina de R$ 32 mil da empresa vencedora do certame por ele aberto em 2012, quando presidia o Legislativo. Num processo considerado cercado de suspeitas, a Arq-Vando Arquivos Corporativos venceu a concorrência e faturou, em parcela única, R$ 113,5 mil dos cofres públicos.

Para o Gaeco, o dinheiro recebido por Saraiva pode ter servido para bancar a reeleição do parlamentar para a legislatura seguinte da Câmara. Fato é que, no pleito de 2012, Saraiva havia se tornado o vereador mais votado da história do município, com mais de cinco mil votos. Manteve a mesma condição quatro anos depois, reelegendo-se com quase o dobro, tendo a preferência de 8.341 eleitores em Araçatuba.

A Justiça ainda decidirá se recebe ou não a acusação feita pelo braço do Ministério Público que investiga o crime organizado. Mas a gravidade da denúncia é clara, considerando-se provas documentais e a relação feita pela investigação com uma organização criminosa responsável por fraudar licitações em cidades de todo o Estado de São Paulo.

O esclarecimento desse caso é fundamental não só na esfera criminal. Afinal, com a denúncia do Gaeco, levanta-se a suspeita de que dinheiro público tenha sido pago de forma irregular, daí a necessidade de apuração do caso na esfera cível. A Promotoria do Patrimônio Público vai apurar eventual prática de improbidade administrativa na aquisição. Por isso, com a corrupção sendo algo recorrente na política nacional e o crime organizado, o maior desafio das autoridades de segurança na atualidade, a sociedade merece explicações. Sabe-se que, para muitas empresas, a política é uma fonte inesgotável de recursos.

Da mesma forma, é fato que, em campanhas eleitorais, o poder financeiro faz muita diferença. Empresário, com uma trajetória que alterna caridade com episódios polêmicos, o peemedebista está diante, agora, do desafio de provar que seu prestígio político (além de parlamentar campeão de votos, líder do legislativo local por dois mandatos nos últimos seis anos e presidente do maior partido da cidade) decorre de sua atuação junto à comunidade, não de meios escusos que tanto colocam a política em descrédito.

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