Rita Lavoyer avalia que concursos literários são de extrema importância para quem escreve

Poema sobre cultura LGBT vence concurso em Araçatuba

Criado em 1993, o concurso de poesias “Osmair Zanardi”, promovido pela Academia Araçatubense de Letras, é uma homenagem ao escritor biriguiense que viveu em Araçatuba de 1966 a 79, ano de sua morte. Com abrangência nacional e temática livre, exige que os poemas sejam inéditos. 

Para última edição, os autores apresentaram de um a três textos, em inscrições individuais, sendo identificados por meio de pseudônimo. Os vencedores foram conhecidos na noite da última quinta-feira, durante a solenidade anual da academia. 

Na oportunidade, houve a entrega de certificados aos vencedores. Em primeiro lugar, ficou a escritora e professora Rita de Cássia Zuim Lavoyer, com a poesia “Permita-se”; em segundo, ficou o professor universitário aposentado Antônio Luiz Giacomelli, com “Balada do Fuzil Abandonado”; e em terceiro, João Silva da Cruz, autor de “Lágrima”. Eles receberam certificado de participação. 

PROCESSO
No começo desta semana, em entrevista à Folha da Região, os autores contaram um pouco do que procuraram expressar em seus versos. Completando dez anos de participações em concursos, Rita obteve, em 2017, o mesmo resultado obtido na primeira vez que participou: o primeiro lugar. 

Depois de uma longa ausência neste concurso, retornou no ano passado e não obteve classificação. Desta vez, com temática que homenageia o público LGBT, Rita afirma que sua obra “é uma singela homenagem à população LGBT”. O “eu lírico” da obra relata o preconceito, a discriminação à orientação sexual e os problemas que esses cidadãos enfrentam para sobreviver. “A poesia é um dos canais que utilizo para declarar minhas indignações”, desabafa a campeã de 2017. 

Giacomelli, por sua vez, trata de uma reflexão sobre o companheirismo e a solidão entre o soldado e o seu fuzil em situação de guerra. Para enfatizar o tema, ele remeteu aos noticiários sobre guerras e conflitos. “Escrevendo essa poesia, eu me lembrei do tempo de adolescente em que servia o tiro de guerra. Fiz sem expectativa de ganhar, apenas me inscrevi no concurso, mas o pessoal gostou do meu trabalho.” 

Cruz afirma que procurou “uma maneira de analisar as lagrimas”. Segundo ele, “elas vem, mesmo se você não desejar” e, com isso, sentiu a necessidade de avaliar como ela se forma dentro de cada um, até o ponto em que vence o corpo e se exterioriza.
“Tentei traduzir isso escrevendo. Ninguém chora de felicidade, isso é raro. A lágrima mesmo vem de uma depressão, melaconcolia, uma dor”, finaliza Cruz, que concorreu com outras duas poesias.
 
IMPORTÂNCIA 
Ações deste tipo são avaliadas pelos escritores vencedores como positivas e fundamentais no desenvolvimento literário da cidade. “Eu digo que sou um escritor bissexto, escrevo esporadicamente, mas considero muito importante, pois há muita gente que produz ótimos trabalhos e precisa mostrar seu conteúdo”, afirma Giacomelli, que se diz fã de clássicos da literatura nacional e internacional. 

Para Cruz, o advento da era digital provocou evasão na “profundidade da pesquisa e conteúdo” e concursos desse tipo são ótimos para esse resgate, já que “o criar conteúdo e o pesquisar foram se perdendo”. 

Já Rita avalia que “os concursos literários são de extrema importância para quem escreve e não quer deixar seus escritos esquecidos na memória do computador, porque são portas abertas para divulgar nossos trabalhos, quando classificados, tirando-nos um pouco do anonimato”. 

A escritora ressalta ainda que todas as cidades deveriam promover concursos literários, a fim de incentivar os cidadãos a lerem e se interessarem por literatura. “Há muita gente boa ganhando concursos literários Brasil afora e nós nem fiamos sabendo”, finaliza.

PROJETOS
A presidente da academia, Yara Pedro de Carvalho, classifica como necessária a realização desses concursos para que os projetos da instituição se expandam. “A Academia Araçatubense de Letras amplia seu alcance popular por termos mais divulgação do que se faz aqui”, explica.


Permita-se

Hei, cara, permita-me ser, assim, do jeito que nasci. Sou por mim tão querido!
Queremos, eu e meus iguais, do mundo variegar o colorido.
Não julgamos nossas cores melhores que a sua, respeitamos-lhe a identidade.  
mas se juntar a sua às  nossas, elas ficarão ainda mais belas.
 Permita que nos velhos olhares despontem inspirações a uma nova aquarela.
Não busque impedir a biodiversidade, o conviver com suas peculiaridades!
Somos, eu e os ativistas da nossa causa, parte dela! Da natureza emanada!
Por que nos deseja extintos? Em que o nosso biotipo o desagrada?
  
Hei, rapaz, permita-me, com meus recursos, viver como sou,
deixar à vista o que de diferente há em mim, em virtude do que  a vida  me doou,
 para que, com a minha diferença, eu possa dialogar pacificamente,  
- aprender com alegria que também tenho talentos imanentes:  
- fazer-me crer que  com ela conseguirei  apoios quando sentir tristezas,
- ser uma razão para que me respeitem com  as minhas verdades, 
e, com ela – a diferença- , redescobrir,  nas minhas entranhas, minhas fortalezas.
Temos o que somos, e estamos da justiça carentes. Não tente! Não nos afugente da sociedade.

Hei, companheiro, permita-me caminhar entre os seus
para que eu possa viver  seguro  em companhia dos meus.
Não arme arapucas para nós, rompendo-nos o passo.
Não nos apedreje, não nos sangre, e do nosso sonho não subtraia o espaço.
Não nos difame, não nos agrida as emoções, ou o nosso sonhar.
não nos dilacere a alma, não se permita, por sua ferida, nos odiar.
Sou mais uma ave colorida com feição definida. Por isso não me calo.
Além de querer melhorar o que sou, descobri que consigo amá-lo.  
  
Hei, colega, permita-me dizer aos “perfeitos”, que há tantos como eu, excluídos.
Mesmo sofrendo, respeitamos os que, por conceitos, não trazem olhares coloridos.
Feridos, renovamos nossa pluralidade. Somos pássaros que da Paz trazemos o manto.
Pela graça da vida, estamos incluídos nas diversidades para embelezá-las.
Não trazemos munições. Nossas nuanças não querem matar-lhes o canto!
Nas gaiolas dissimuladas, compostas por aversões, experimentamos os ferrões
e as navalhas dos que se dizem espadas, viris, valentes , mas... em suas valas,
nem suspeitam que se auto mutilam com seus sentimentos de rejeições.

Hei, permita-me chamá-lo de você, de meu irmão, de meu amigo...
Converse comigo! Também sou do “gênero” humano. Sou todo zodíaco, não ariano.  
Por que foge, se camufla e volta com bando  e em nós insufla sua violência?
O que dói no seu olhar, no seu corpo, no seu pensamento, na sua existência
quando vê  criação  como eu? Por que necessita agredir, com sua frieza,
 a nossa natureza? Incomoda-o não sermos formação  da mesma costela?
Nossas florestas são imensas. Por que deseja que a sua intolerância seja maior que elas?
Nelas cabem nossas cores e nossos cantos! Observe-as e aparemos nossas arestas!

Hei! Permita-me, com esse vôo que é tão meu, ser  do gênero que  eu quiser.
O meu vôo, não precisa imitá-lo! Sem resvalo, faça o seu como lhe apraz,
valorizando do seu voar o matiz. Evite em você a cólera e não se faça juiz:
 não nos acuse, não nos julgue, não nos condene por não gostar da cor do alheio arco-íris.
Sei que há diferenças entre nós e isso muito o perturba, lhe é mordaz! Nota-se!
Assemelhemo-nos em alguma causa: como eu, permita-se à felicidade. Seja sublime!
Que a arbitrariedade, por você, a nós imputada, não seja a razão do seu crime.
Não manche de sangue suas mãos por um preconceito que não nasceu com você.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.376206