Momento ruim desvalorizou a carne brasileira

Pecuária em Araçatuba vive cenário ainda mais doloroso com ‘carne fraca’ e delações de Joesley

Semestre ficou mais complicado com operação e denúncia

Em um semestre que já seria desafiador devido à oferta maior que a demanda, a pecuária passa por um cenário que se tornou doloroso, como descrevem especialistas do setor. As repercussões da Operação Carne Fraca, a volta do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural) e a delação de dono da maior empresa de proteína animal brasileira geraram reflexos no valor da arroba do boi gordo. 

A cotação em Araçatuba despencou 13% desde o início de 2017, passando de R$ 150, em 30 de janeiro, para R$ 130, na última sexta-feira, de acordo com dados da Scot Consultoria. O valor atual é ainda 18% menor que o verificado no mesmo período de 2016, diferença que equivale à queda de R$ 28,50. Em 28 de junho do ano passado, a arroba do boi, para 30 dias, havia alcançado R$ 158,50 em Araçatuba. 

INDICADOR
Segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), no acumulado de junho até o dia 28, o Indicador ESALQ/BM&FBovespa do boi gordo registra baixa de 3,3%. “Os poucos negócios efetivados ocorrem devido à necessidade de venda de parte dos pecuaristas, que se depara com escalas alongadas em muitas unidades de abate”, informou o órgão, em boletim. No começo de junho, o centro de pesquisa informou que o indicador alcançou a menor média real desde agosto de 2013, de R$ 130,86. 

Os pesquisadores apontaram como fatores para a desvalorização o aumento na produtividade, o menor consumo interno, devido às crises política e econômica no País, especulações referentes à operação Carne Fraca, que afastaram importadores do Brasil, e a volta da cobrança do Funrural. “Além disso, fatos relacionados a uma das mais importantes indústrias do setor têm redirecionado a oferta de animais para outras empresas, que passam a ter maior poder de negociação.” No dia 7 de junho, o indicador fechou a R$ 129,94. 

MERCADO INTERNO
De acordo com o zootecnista e consultor de mercado da Scot Consultoria, Gustavo Aguiar, as principais alterações na dinâmica da pecuária neste ano afetaram o mercado interno. Ele explica que os anos de retenção de fêmeas para produção de bezerros — categoria antes valorizada — levou a uma disponibilidade grande de animais para abate. 

A oferta maior somada ao fato de demanda da carne ser ainda baixa com a economia ainda em processo de recuperação levou à uma desvalorização do bezerro e do boi. “Já seria um ano desafiador. E a gente passou por vários problemas no mercado interno, o que começou com a Operação Carne Fraca.”

A ação deflagrada no dia 17 de março pela Polícia Federal que levou à acusação de que empresas alimentícias participavam de esquema de adulteração de carne e derivados comercializados nos mercados internos e externos afetou as cotações do produto e as exportações, com 18 países adotando restrições temporárias às mercadorias brasileiras. 

Aguiar recorda que a decisão tomada no final de março pelo STF (Surpremo Tribunal Federal), que permitiu à União a voltar a cobrar a contribuição ao Funrural, também refletiu na pecuária. Os empresários do ramo devem recolher 2,3% sobre a receita bruta. “Isso ajudou a dar uma bagunçada no mercado e artificialmente reduziu os preços recebidos pelo produtor.” 

Segundo o consultor de mercado, as dificuldades do setor aumentaram com a divulgação da delação premiada de Joesley Batista, dono da JBS, que demonstram o envolvimento da empresa e seus proprietários em escândalo de corrupção investigado pela Operação Lava Jato. A entressafra deve ajudar contra a desvalorização, porém, como o clima colaborou para que a pastagem se desenvolvesse bem, ainda há gado disponível para abate, o que pode gerar pressões para baixas nas cotações no próximo mês, de acordo com Aguiar.


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