Patrícia Bértoli Dutra, de Araçatuba, é doutora em linguística aplicada, professora de inglês, literatura inglesa e pesquisa e prática pedagógica

Patrícia Bértoli Dutra: Contexto

As línguas têm particularidades muito interessantes. A língua portuguesa que falamos aqui no Brasil está recheada de palavras homônimas, ou seja, palavras que compartilham a mesma forma escrita e oral, mas que trazem significados diferentes. 

Como é que conseguimos distinguir se estamos nos referindo à fruta ou à parte de uma camisa, quando dizemos “manga”? Ou se o “canto” ao qual me refiro é o de um pássaro, o de uma sala ou se sou eu realizando a ação de cantar? Existem também as palavras homógrafas, que possuem a mesma grafia, mas têm pronúncia diferente. Como sei se devo ler acordo como som de “ô” ou som de “ó”, se é substantivo ou verbo? E ainda as homófonas, que compartilham o mesmo som, mas escrevem de forma diferente: qual “seção” devo usar, como “ç” ou “ss”, iniciar com “s” ou “c”?

Quem nos dá essa resposta, mesmo que não precisemos perguntar, é o contexto. Este pode ser imediato, isto é, uma ou duas palavras de distância, ou estar associado a uma ideia maior. Uma manga de camisa não vai estar deliciosa ou saborosa, da mesma forma que a fruta não estará curta nem larga. Tanto o canto da sala como o de um pássaro podem ser lindos, mas um vaso só pode ficar bem num canto de sala. Um acordo (ô) é cumprido, assinado, lido, intermediado, entra em vigor, enquanto que, para o outro acontecer, é preciso que o sujeito estivesse dormindo antes, ainda que metaforicamente. 

Em casos que exigem mais do falante, geralmente os de escrita, recorremos ao dicionário ou ao google e nos certificamos que cessão é de direitos, advindo do verbo ceder; sessão é um período de tempo e seção refere-se a uma parte. Se bem que algumas vezes as pessoas se arriscam, esquecem de verificar e acontece como vimos há alguns dias num renomado jornal do país a palavra “sela” (do verbo selar, colocar selo, lacrar) onde deveríamos ler “cela” (cárcere, prisão).

A língua estrangeira não é diferente. Em inglês, o verbo “read” (ler), por exemplo, tem a mesma grafia em suas formas de presente e passado, mas a pronúncia é diferente; som mais próximo ao som de “i” para o presente e mais próximo ao som de “é” no passado. Já a palavra “bat” pode se referir tanto a morcego quanto a um taco de baseball. “Bear” pode ser o animal urso ou pode ser o verbo suportar, aguentar. “Cast” pode significar arremessar, jogar, moldar, selecionar o elenco, elenco ou gesso. E há também as homófonas, como é o caso de “air” e “heir” (ar e herdeiro), “tail” e “tale” (cauda e conto), ou ainda “cell” e “sell” (célula e vender).

Se para o falante nativo aprender uma palavra e suas diversas possibilidades já é um processo trabalhoso, obviamente que em segunda língua o trabalho se torna mais árduo. Mas o segredo está em confiarmos no contexto em língua estrangeira, da mesma forma que confiamos em língua materna. É o contexto que nos fornece a resposta. Ninguém interrompe uma leitura cada vez que se depara com uma palavra que não conhece. Ou a gente a ignora e tenta entender o texto sem aquela palavra ou a gente tenta deduzir seu significado pelo resto da frase ou do parágrafo. Na maioria das vezes, isso é o suficiente em ambas as línguas.

Além disso, há palavras que são usadas especialmente para desambiguizar os significados até em situações linguísticas mais simples. A frase “Os meninos viajaram para uma terra fantástica”, por exemplo, pode criar algumas dúvidas: Quantos meninos? Que terra fantástica? Todos os que viajaram foram para o mesmo lugar? Isso pode ser resolvido inserindo palavras desambiguadoras como: “Todos os meninos daquela escola viajaram para a mesma terra fantástica”. Dessa forma, pode-se saber quais foram os meninos e para onde foram, mesmo que não tenhamos ainda especificado a escola ou a terra. Em inglês, seria a mesma coisa: “All the boys from that school traveled to the same fantastic land”. 

Enfim, o contexto é o melhor amigo da compreensão textual. É ele que nos ajuda a entender uma ou várias palavras, a decifrar qual de seus significados é o mais adequado para aquela situação e, algumas vezes, quando estamos produzindo, seja de forma oral ou escrita, nós podemos incluir palavras que incrementarão o contexto para o melhor entendimento e nosso leitor ou ouvinte.

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