Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Padre Charles: Em comunhão

Viver em paz é comum anelo! As constantes e reais ameaças contra a integridade física e patrimonial levam os cidadãos a viver em permanente estado de sobressalto. Não raramente, com intenção de proteger-se o cidadão age agressivamente, piorando ainda mais a situação de paranoia. 

As narrativas da ressurreição de Jesus, conforme registradas nos evangelhos, apresentam um dado interessante, que reúne reais condições para assegurar o tão almejado sossego. Ao ler com atenção essas narrativas percebe-se que a fé no Ressuscitado e a certeza de sua presença viva estão intimamente atreladas ao convívio fraterno entre os discípulos. Na versão do evangelista João, o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos se dá no mesmo dia da ressurreição enquanto estão reunidos, com medo e a portas fechadas, na casa do cenáculo. 

Para reforçar esta verdade, João acrescenta o episódio de Tomé, que, na hora, se encontrava ausente. Os amigos contam posteriormente a aparição de Jesus, mas ele recusa crer. Exige provas. E a prova lhe é oferecida, oito dias depois, novamente quando o grupo está reunido e desta vez Tomé está junto. A mensagem é por demais clara: viver em comunidade é uma das consequências primeiras da fé na ressurreição do Senhor. 

Idêntica lição é repassada pelo evangelista Lucas, no eloquente episódio dos discípulos de Emmaús. Dois discípulos decidem afastar-se de Jerusalém, presumivelmente para retomar seus originais trabalhos. No caminho, Jesus, camuflado de peregrino, se aproxima e, caminhando com eles ao longo do dia, lhes explica as Escrituras. Ao chegar ao destino, aceita o convite para com eles sentar-se á mesa. Ao repartir o pão é reconhecido por ambos. Significativa catequese: Jesus é reconhecido vivo e presente numa fraterna refeição. 

A vitória de Jesus sobre a morte, sua real presença junto aos seus após a ressurreição fez, certamente, o grupo primitivo compreender que o testemunho maior que devem ao mundo é seu convívio comunitário. Este convívio, contudo, fica muitas vezes conturbado por causa das inevitáveis limitações humanas. Valores conflitantes e defeitos de personalidade tumultuam a convivência, tornando-a frequentemente difícil, discriminatória e, até, repulsiva! São necessários radicais ajustes de personalidade para que se possa viver bem em comunidade! Crer na ressurreição é nascer de novo!

Compreende-se o empenho dos evangelistas em exaltar o convívio fraterno da primitiva comunidade. Admira-se o grau de fraternidade daquele primeiro grupo de seguidores. Entende-se perfeitamente que a pregação mais eloquente que apresentavam, e que acabava atraindo números sempre maiores de admiradores e seguidores, era o exemplo de um autêntico convívio fraterno. Como se amam, costumava-se comentar. A vida em comum é a novidade maior trazida e confirmada pela ressurreição do Senhor Jesus! É o peculiar contributo dos cristãos para o mundo viver em paz e tranquilo! Viver em comunhão é viver sem sobressaltos. É viver seguro! A Páscoa é sempre nova! E renovadora!