Mayla conseguiu o desenvolvimento emocional e educacional de Lucas depois que passou a acompanhá-lo todos os dias

Os mecanismos para a aprendizagem adequada de surdos em Araçatuba

Há 8 alunos com deficiência auditiva e 3 com surdez profunda em escolas municipais

As lições transmitidas pela vibração das cordas vocais dos professores não atingiam Lucas Henrique Duquini. Até dois anos atrás, o estudante surdo não conseguia comunicar outras palavras além de “água”, “banheiro” e “árvore” na sala de aula ou mesmo em casa. Sem conseguir se expressar, ele era agitado e chegava a arrancar os próprios fios de cabelo. 

Hoje com 9 anos e no 5º ano do ensino fundamental, Lucas passou a interagir com a família, com os colegas e professores. Ele já participa das aulas de educação física, arte, é ativo na sala de aula, compreende conteúdos das aulas de ciências e geografia adaptados, além de estudar somas e o alfabeto de sinais. 

O desenvolvimento emocional e educacional do garoto teve um grande progresso a partir do 3º ano, quando a intérprete de Libras (Língua brasileira de sinais) Mayla Ferreira Bavezzi começou a acompanhá-lo todos os dias, das 7h às 12h, nas salas de aula da Emeb Prof.ª Carmélia Melo Fonseca, em Araçatuba. É ela que traduz tudo que é dito em aulas para o menino. “Trouxe uma mudança radical”, afirma ela. Com movimento circular na mão sobre o peito, Lucas sinaliza que gosta da escola.

INTÉRPRETE
Ele é um exemplo da diferença que faz a presença de profissionais e mecanismos adequados para a aprendizagem e inclusão de crianças e adolescentes com deficiência auditiva ou surdez. 

A inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva nas salas regulares, o oferecimento de atendimento especializado a eles no contraturno escolar, o reconhecimento de Libras como segundo idioma oficial do Brasil e o uso de recursos pedagógicos multifuncionais para ajudar no desenvolvimento do aluno com perda auditiva são alguns dos avanços conquistados na educação brasileira. Contudo, um dos desafios é oferecer a presença constante de um intérprete a todos os estudantes com perda auditiva. 

Só nas escolas municipais de Araçatuba há oito alunos com deficiência auditiva em graus diversos e três com surdez profunda, segundo a Secretaria Municipal de Educação. Na rede, há apenas uma intérprete. 

Na Diretoria Regional de Ensino de Araçatuba há 18 estudantes surdos ou com deficiência auditiva (11 deles com surdez total). Eles estão matriculados em escolas estaduais da cidade-sede de região, Valparaíso, Guararapes e Santo Antônio do Aracanguá, as quais, juntas, contam com sete professores-interlocutores que acompanham o aluno surdo na sala de aula, interpretando o conteúdo trabalhado. 

O cargo foi criado com a resolução 38, de 2009, da Secretaria de Estado da Educação com o objetivo de garantir aos alunos com surdez ou deficiência auditiva o acesso às informações e aos conhecimentos curriculares dos ensinos fundamental e médio. 

TRADUÇÃO
A dirigente do Departamento Municipal de Educação Especial Inclusiva, Andrea Melinsky, destaca a importância do intérprete. “Esse profissional, não é um professor, mas é quem fará a transposição, ou a tradução de uma língua para a outra, proporcionando condições plenas de interação desse aluno com todo o meio escolar”, explica. Foi a intérprete de Libras que ensinou a Lucas a língua de sinais, há dois anos e meio. Além da surdez, ele tem apenas a visão periférica devido à amaurose congênita de Leber. 

Mayla começou a estimular o aprendizado do garoto com a Libras tátil (língua de sinais adaptada a quem é surdocego) e com a Libras, sempre próxima à visão periférica dele. “Tudo era feito com objetos concretos e da prática. Procurei apresentar o que envolvia a rotina dele: os alimentos, as bebidas, a higiene, a escovação de dentes, os animais por meio de brinquedos.” 

Hoje, Lucas utiliza mais o campo visual do que o tátil, está aprendendo datilologia (alfabeto da língua de sinais) e usa computadores e tablets. “Ter um intérprete de Libras é prioritário para o estudante surdo. Senão ele fica isolado”, afirma a coordenadora pedagógica da escola que Lucas frequenta, Ana Lúcia Barreto de Carvalho. 

Fora a intérprete, Lucas é acompanhado por uma cuidadora e participa à tarde do AEE (Atendimento Educacional Especializado) com professor especializado e materiais especiais que ajudam no seu desenvolvimento completo às aulas. “O AEE é oferecido para todos os alunos da rede. É importante para crianças com qualquer deficiência”, afirma Ana. 


Rede pública oferece curso para professor

A dirigente do Departamento Municipal de Educação Especial Inclusiva, da Secretaria Municipal de Educação, Andrea Melinsky, relata que, embora não seja possível precisar quantos professores da rede regular realmente dominam o uso de Libras, um número significativo deles tem buscado se especializar. “Neste ano foram oferecidas pela Secretaria Municipal de Educação 180 vagas para curso de Libras tendo como público-alvo professores e comunidade em geral; a procura por vagas superou as expectativas”, comemora.

Ela conta que, entre os recursos pedagógicos utilizados nas escolas para quem necessita do uso de libras em salas regulares e nas salas de recursos multifuncionais, estão vídeos com janelas de interpretação, livros com adequações para libras, jogos, softwares, materiais desenvolvimentos por professores de AEE com imagens do cotidiano do aluno. “Tais fatores influenciam não só na aprendizagem do aluno surdo, mas no desenvolvimento de habilidades, potencialidades, autonomia, autoestima e principalmente para que possam desempenhar seu papel com criticidade, tanto na escola quanto na sociedade.” 

Andrea explica que no AEE o aluno aprende Libras, recebe a transposição do conteúdo das aulas para a língua de sinais quando já domina e, no momento que o estudante é proficiente neste idioma, ele estuda também a língua portuguesa. 

ESTADO
Nas escolas da rede estadual há o APE (Atendimento Pedagógico Especializado), ou seja, as Salas de Recursos com professor especializado na área de deficiência, que se destina a sala, recursos tecnológicos, internet, dicionário e recursos visuais em libras. A professora Ana Maria Bombonatti, da Secretaria de Estado da Educação em Araçatuba, informa que a rede oferece aos professores curso de Libras. “O que já existe, e ajuda muito, são os interlocutores em sala de aula e as orientações técnicas aos professores de adaptação curricular”. 


Despreparo é uma barreira, considera especialista

O despreparo do educador ainda é o principal desafio para a educação de surdos no Brasil, na avaliação do professor Leandro Rodrigues do Instituto Itard, especializado em educação, diversidade e inclusão social. De acordo com ele, uma comunicação de sucesso entre professor e aluno é determinante no resultado da aprendizagem e formação profissional. “Tentar incluir um aluno surdo na aula não é, de fato, incluí-lo. Dependendo da escolaridade do aluno, ele pode ainda não dominar completamente a língua portuguesa e, inevitavelmente, irá se sentir como um estrangeiro dentro da sala de aula.” 

Rodrigues acredita que o professor precisa ser fluente em Libras. “Pode parecer exagero cobrar do professor fluência em Libras. Uma reflexão válida é pensar que hoje temos muitos professores de diferentes disciplinas que são fluentes em inglês. Porque não Libras?” 

ADAPTAÇÃO
Rodrigues esclarece que, para promover a educação e inclusão dos estudantes surdos e deficientes no Brasil, as escolas precisam oferecer todo o material didático, provas, exercícios, livros, textos e vídeos adaptados em língua de sinais, além de ter uma equipe de apoio com domínio de Libras. 

Ele destaca também que a escola precisa ter proposta de aulas que atendam necessidades de surdos oralizados (que desconhecem a língua de sinais, mas se expressam com a língua portuguesa), diferente da preparada para o surdo sinalizado (que se comunica por Libras). Ele também defende que o aprendizado na língua de sinais brasileiras seja oferecido aos outros estudantes para facilitar a socialização. 


Para analista, legislação facilitou ingresso no mercado

Para a analista jurídica Ana Carolina Lemos Marques de Oliveira, 35, a lei 8.213, de julho de 1991, que obriga o preenchimento de 2% a 5% das vagas do quadro de funcionários com deficiência, colaborou para que houvesse um ingresso alto de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. “A situação melhorou, pois a deficiência, antigamente não era bem-vista. Acredito que não contratavam por achar que podem produzir bem menos do que um profissional sem deficiência”, afirma.

Ana conta que ela mesma já trabalhou como PNE (Pessoas com Necessidades Especiais). A analista jurídica tem perda total da audição no ouvido esquerdo e perda severa no direito adquirida devido à meningite que teve com um ano e meio de idade. Para se comunicar, ela usa aparelhos e fez fonoaudiologia, onde aprendeu a leitura labial. 

Ana estudou em escolas públicas e particulares de Araçatuba e São Paulo. Ela lembra que se comunicava bem com os outros estudantes graças ao tempo que fez de fono, o que trazia impacto positivo na aula. A mãe costumava avisar nas escolas que ela precisava sentar na fileira da frente da sala devido à deficiência auditiva, porém alguns professores às vezes esqueciam, o que dificultava o aprendizado, principalmente quando ditavam a matéria. “Mas tive grandes amigas que me ajudavam sempre.” 

Ela acredita que, em comparação com a época em que frequentava a escola, houve avanços nos últimos anos, principalmente na medicina e, na educação, com a introdução da tecnologia que facilitou o acesso a informações. “Os celulares, aplicativos, tudo facilita.” 

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'INCLUSÃO NA EDUCAÇÃO'

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