Os dois lados da volta às aulas

Não adianta, ao poder público, cuidar só daquilo que dá visibilidade

A volta às aulas na rede municipal de ensino de Araçatuba expõe um contraste. De um lado, a boa notícia do retorno dos quase 16 mil estudantes com os kits escolares completos. Seria algo normal, mais do que obrigação da Prefeitura, considerando-se o volume de dinheiro que entra para a educação. Ocorre que, nos últimos anos, sempre quando o assunto era o material escolar fornecido às unidades de ensino municipais, a polêmica rondava. 

No ano passado, o atraso na entrega. Num passado não tão distante, as denúncias de utilização de frase de campanha eleitoral nos produtos e de superfaturamento na aquisição, esta resultante em condenação por improbidade administrativa ao ex-prefeito Cido Sério (PT).

Por outro lado, apesar de a gestão do prefeito Dilador Borges (PSDB) mostrar um diferencial em relação à passada, antigos problemas verificados nas escolas municipais persistem. Muitos deles, relacionados à manutenção ou infraestrutura, como a Folha já noticiou em outras ocasiões.
 
Reportagem publicada pelo jornal mostra que, na Emeb (Escola Municipal de Educação Básica) Anna dos Santos de Barros, há mato alto dentro e em torno do estabelecimento. Já na Emeb Maria Alice Couto de Moraes, pais reclamaram que, no primeiro dia de aula deste ano, não havia água filtrada e gelada para as crianças.

Ambos os problemas têm, em comum, o fato de trazerem preocupações relacionadas à atual época do ano. De um lado, a possibilidade de o próprio estabelecimento educacional virar criadouro do mosquito transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. De outro, a falta de condições mínimas para hidratação de meninos e meninas.

Essa dupla realidade mostra que não adianta, ao poder público, cuidar só daquilo que dá visibilidade das realizações de um governo — no caso, a entrega dos kits escolares. Uma escola em condições precárias de atendimento pode trazer consequências negativas à formação dos alunos. Não à toa que um pai de aluno ouvido pela reportagem na edição de hoje afirma estar pensando em tirar sua filha da escola onde estuda simplesmente por causa do problema verificado nos bebedouros.

Portanto, é louvável ver que a atual administração tem procurado unir esforços a fim de corrigir mazelas deixadas por anos de desmandos na gestão pública municipal. Só que uma boa avaliação no campo da educação dependerá também da satisfação dos pais em saberem que seus filhos estão sendo bem atendidos, sem correr qualquer tipo de risco em um ambiente no qual frequentam, diariamente, com o objetivo de aprender. 

LINK CURTO: http://folha.fr/1.388273