O 'vai como pode' na saúde e os riscos do atendimento enxuto

A flexibilização anunciada pelo governo federal para o funcionamento das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) foi recebida com uma dose de ceticismo por parte de entidades ligadas à classe médica. Razões para tal não faltam.

A grande novidade está na redução do número mínimo de médicos exigido para estes postos entrarem em funcionamento. Antes, eram quatro, mas, no final da última semana, o Ministério da Saúde anunciou que podem ser dois. A principal questão que fica é: conseguirá um serviço público de saúde, voltado a um atendimento 24 horas, dar conta da demanda com essa quantidade de profissionais?

A medida é bem-vista por parte dos gestores públicos, que poderão colocar em atividade esses serviços num momento em que a crise econômica ainda é um entrave para a contratação de mão de obra em grande escala. Coincidência ou não, a inauguração da UPA Jorge Maluly Netto, no bairro Umuarama, em Araçatuba, foi agendada para a sexta-feira, um dia após o anúncio do ministério e na véspera do fim do governo Cido Sério (PT).

A unidade, que custou R$ 2,4 milhões, sendo R$ 1,4 milhão proveniente da União, tinha previsão de entrega para janeiro de 2013. Apesar de sua construção estar inteiramente concluída há bastante tempo, a UPA do bairro da zona leste só não começava a atender por falta de uma fonte de custeio e de profissionais.

Em geral, o Ministério da Saúde repassa 50% do valor necessário para o funcionamento de cada UPA, enquanto os outros 25% são liberados pelo Estado e os demais 25% pelos municípios.

Se do ponto de vista político e administrativo a flexibilização foi uma saída, para a população é uma incógnita. Na rede pública, seja em unidades básicas de saúde ou em prontos-socorros, é nítida a necessidade de mais profissionais. Muitos casos que chegam a esses serviços, vale destacar, decorrem da falta de conhecimento da população sobre o tipo de atendimento que pode ser feito em uma UBS ou em um PS. Com as UPAs, não deverá ser diferente. Com poucos profissionais, fazer esse trabalho de conscientização será ainda mais necessário.

Não são poucos os riscos que a possibilidade de atendimento enxuto traz. O primeiro deles é a sobrecarga dos médicos, que, por sua vez, encontrarão dificuldades para executar justamente aquilo que os prefeitos mais prometem para a área da saúde em período de campanha eleitoral: atendimento humanizado e preventivo. Ou seja, os prejuízos podem ser mútuos: para a população dependente e os profissionais de medicina. Não se pode deixar de citar ainda o risco de ociosidade de parte das estruturas montadas, exatamente por falta de mão de obra suficiente.

A mesma crise que obriga prefeituras a enxugar ao máximo tende a fazer com que cresça a dependência da população por serviços públicos de saúde. Não é demais lembrar que os planos de saúde foram um dos principais alvos de corte de gastos das famílias no ano passado, quando a recessão se agravou. Por isso, da rede pública de saúde, vai se exigir uma estrutura cada vez melhor.