Nascida na Ucrânia, Clarice que veio ao Brasil para fugir de guerra e perseguições; no destaque, Brefore, estudioso da obra da autora

O mundo, segundo Clarice Lispector

País perdia há 40 anos uma de suas maiores escritoras

Das terras ucranianas e seu frio característico ao calor brasileiro de Pernambuco. Esse foi o trajeto feito em 1922 por Marieta e Pedro Lispector (Mania e Pinkhas, nomes originais) junto com as filhas Elisa (Leia), Tania e Clarice (Haia). Judeus, vieram para o Brasil após perderem tudo na Guerra Civil Russa (1918-21) e durante a perseguição aos judeus. 

Das três meninas do casal, Clarice veio a se tornar um dos maiores nomes da literatura brasileira. Autora de romances, contos e ensaios, ela é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século 20 e a maior autora judia desde Franz Kafka. Clarice nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Chechelnyk, na Ucrânia. Em sua obra, enquanto escritora e jornalista, são constantes as cenas simples do dia a dia e tramas psicológicas, sendo considerada uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano.

No último dia 9, completou-se 40 anos de sua morte. Em 1939, ingressou na Faculdade Nacional de Direito, onde conheceu o futuro marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, hoje com 96 anos de idade. Com ele, Clarice teve os filhos Pedro e Paulo Gurgel Valente. Por causa da profissão do marido, a escritora viveu vários anos longe do Brasil. No período em que se manteve casada, viveu em Berna, na Suíça; Washington; e Nápoles, na Itália. Mesmo distante, a escritora manteve seu ritmo de trabalho no jornalismo e na literatura.

Em 1942, começou a trabalhar como repórter no jornal carioca “A Noite”. Dez anos depois, tornou-se responsável pela página “Entre Mulheres”, do jornal “Comício”, também no Rio, sob pseudônimo de Tereza Quadros. De 1959 a 60, publicou, sob o pseudônimo de Helen Palmer, a coluna “Feira de Utilidades” no jornal carioca “Correio da Manhã”. No mesmo ano, escreveu a coluna “Nossa Conversa”, no “Diário da Noite”, como ghost writer da atriz Ilka Soares. O “Jornal do Brasil” passou a publicar suas crônicas em 1967. 

RELEVÂNCIA
Passadas quatro décadas de sua morte, Clarice ainda tem sua obra usada fonte constante de pesquisa e debate. O professor e escritor Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, recém-eleito membro da Academia Araçatubense de Letras, é um estudioso da obra da escritora. Brefore realizou pesquisa em nível de pós-doutorado sobre Clarice Lispector na USP (Universidade de São Paulo) e publicou o livro “A tragédia do tédio da repetição em Clarice Lispector”.

Para ele, Clarice é, ao lado de Guimarães Rosa, a grande representante, no Brasil, do chamado “romance de tensão transfigurado” (em suas narrativas, a heroína ultrapassa o conflito que a constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade). “Não há somente uma sondagem interior das personagens, mas uma tensão dramática que se aprofunda, extrapolando o real concreto e tocando o mítico/metafísico/espiritual”, explica o professor.

Brefore considera que a obra de Clarice está sempre presente e se faz importante para os problemas da mulher do século atual. “Os dramas existenciais de suas personagens são dramas eternos; e as angústias do feminino em Clarice ainda são os problemas que a mulher do século 21 enfrenta em sua vida em sociedade”, analisa o também escritor. Por isso, ele é categórico: “Para descobrir Clarice é preciso lê-la”. Ele sugere que, em vez que buscar citações na internet sobre a escritora, o melhor é dedicar-se à leitura de sua obra.


Uma trajetória por diferentes gêneros literários

Entre os romances da escritora que mais se destacam estão “Perto do coração selvagem” (seu primeiro trabalho, lançado em 1943), “O lustre”, “A cidade sitiada”, “A maçã no escuro”, “A paixão segundo G. H.”, “Água viva” e “Um sopro de vida”.

Entre os contos estão “Laços de família”, “A legião estrangeira”, “Felicidade clandestina”, “Onde estivestes de noite?”, “A via crucis do corpo” e “O ovo e a galinha”, considerado por ela em sua última entrevista como um dos trabalhos gratificantes. 

No campo da literatura infantil, estão “O mistério do coelho pensante”, “A mulher que matou os peixes”, “A vida íntima de Laura”, “Quase de verdade” e “Como nasceram as estrelas”. Entre as crônicas, estão “Para não esquecer” e “A descoberta do mundo"” Já “A hora da Estrela"é sua novela mais afamada. 

Carlos Brefore explica que, entre as obras de Clarice mais admiradas pela crítica, estão “Perto do coração selvagem”, “A paixão segundo G. H.” e “Água viva”. Já o público em geral é apaixonado pela obra “A hora da estrela”. “Vale notar também que Clarice é uma grande contista, e alguns críticos consideram que suas obras-primas não são os romances, mas contos, como ‘Feliz Aniversário’, ‘A imitação da rosa’ e ‘Amor", explica. 

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