O dinheiro do carnaval

Soa demagógico dizer que o corte na cultura tem relação com a preocupação com as pessoas

O carnaval está chegando e Araçatuba, pelo terceiro ano consecutivo, não terá o seu tradicional desfile de escolas de samba. Em tempo de crise econômica, setores expressivos da população aprovam decisões de prefeitos que, por várias partes do Brasil, decidiram abrir mão de investir nos festejos, sob o argumento de que, assim, sobra mais recursos para a saúde, educação, segurança, entre outras áreas de demandas maiores. 

No Rio de Janeiro, onde a festa é, para muitos, o “maior espetáculo da Terra”, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) reduziu pela metade o valor liberado às escolas de samba. Acabou ele virando mote para o enredo da mais popular das escolas cariocas, a Mangueira: “Com ou sem dinheiro, eu brinco”.

No entanto, em entrevista publicada na edição de domingo (28) da Folha, o fundador da Virada do Sol, Rovel Menezes, faz uma reflexão, no mínimo, interessante, ao rebater a tese de que o dinheiro não liberado para o carnaval resulta em economia. Diz o antigo carnavalesco: “Nós ficamos três anos sem carnaval em Araçatuba. O que mudou na cidade? O asfalto, a educação e a segurança continuam com problemas. Por que a turma do carnaval é a culpada?”

De fato, a contenção com o carnaval não significou melhorias em setores dos quais a população clama, há tempos, por avanços nas políticas públicas. Basta ver a enxurrada de ações por improbidade administrativa a que responde o ex-prefeito Cido Sério (PT), boa parte delas por dinheiro usado irregularmente na área da saúde. E o que dizer das incontáveis ruas e avenidas esburacadas desta cidade?

A questão está no como gastar. O município é independente para definir se patrocina ou não o carnaval. Ocorre que a verba destinada ao reinado de momo provém do orçamento da cultura, este, sim, o campo mais sacrificado em momentos de contenção de despesas no poder público.

Soa, portanto, demagógico dizer que o corte em promoção da cultura tem relação com a preocupação do bem-estar das pessoas. Não só do carnaval, mas artistas de teatro, balé, literatura, música, praticamente de todos os campos, viram suas produções comprometidas pela falta de incentivo nos últimos anos devido à crise. As autoridades não podem esquecer, por outro lado, a contribuição que a cultura traz para o desenvolvimento intelectual, a reflexão da sociedade e o descobrimento de novos talentos.

Fato é que o dia em que os recursos para a saúde, educação, segurança, infraestrutura e moradia, ainda que escassos, forem bem aplicados, não sobrará espaço para demagogia barata, justificando o que não se faz por vontade política com discursos populistas que pouco trazem de efeito prático.

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