Felipe Sgoti Padovês é historiador e professor no Colégio Nossa Senhora Aparecida, em Araçatuba

O Chico de todas as gerações, por Felipe Sgoti Padovês

Voltei a cantar! Na última sexta feira, 25 de agosto, o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, 73 anos, lançou seu mais novo trabalho, o álbum Caravanas. Após um intervalo musical de mais de seis anos, o artista apresentou seu trabalho cujo tema central é o amor não correspondido de apaixonados. O novo álbum segue, praticamente, a mesma linha melódica de seu último trabalho, Chico, de 2011, porém, com mais amores não correspondidos.
 
Chico Buarque surpreendeu ao mostrar a sua intimidade com as redes sociais e com as plataformas digitais tanto em suas novas composições, como no lançamento de seu álbum. Todo o marketing de lançamento teve como foco principal esses meios. Primeiro é lançada a música “Tua Cantiga” no Spotify, no Deezer, e um videoclipe atemporal no Youtube, que, em breve, ultrapassará mais de um milhão de visualizações. Entretanto, é o lançamento do álbum completo que mais surpreendeu. 
 
O álbum foi lançado, gratuitamente, na madrugada da quinta (24) para a sexta (25) em todas as plataformas digitais já mencionadas e, principalmente, ao vivo na Live, do Instagram oficial do cantor. O álbum conta com sete músicas inéditas e duas regravações. A primeira regravação, na ordem do disco, é uma composição com Edu Lobo, “A Moça do Sonho”, e a segunda, “Chico canta Duetocom”, a sua neta Clara Buarque. 
 
A questão do álbum é que é Chico sendo Chico, ou seja, as músicas não são apenas histórias de romances ou desencontros amorosos. Na realidade,Chico está atento, como sempre, para as transformações sociais, políticas, culturais e tecnológicas do cotidiano brasileiro. Na regravação de Dueto, por exemplo, Chico e Clara trazem as atuais redes sociais, como o Facebook, Twitter e Tinder, que favorecem o início e o cultivo de uma paixão. 
 
Uma música mais polêmica, talvez, é “Blues Para Bia”, que conta a história de um homem que se apaixonou por uma mulher, mas ele não consegue espaço em seu coração porque Bia é homoafetiva. Chico, também, gerou polêmica, logo após o lançamento da primeira faixa do álbum, porque os versos narram a história de um amante que largaria, sem pestanejar, mulher e filhos para viver com sua “rainha”. 
 
As duas últimas faixas do álbum são as mais críticas. Na penúltima música, “Desaforos”, Chico rebate, muito sutilmente, os ativistas políticos de direita que o abordaram, em dezembro de 2015, no Leblon. E na última música, “Caravanas”, a obra-prima do álbum, Chico faz uma relação direta do passado escravocrata brasileiro com a atual desigualdade social, racial e econômica, e principalmente, apresenta o racismo indireto — com o uso da violência direta — disfarçado com a máscara da cordialidade brasileira.
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