Paoliello, que relembra origens da Cobrac, e Neves Filho, que tem na memória o “valor” do sal para o gado

No início da Cobrac, insumos a preços acessíveis

Esta foi uma das principais formas de ajudar o agricultor local

A história da Cobrac acompanha o movimento de ciclos agrícolas de Araçatuba e região. A fundação da cooperativa é resultado da articulação de pecuaristas do município sede que buscavam retomar o controle do frigorífico T. Maia, do qual eram acionistas e que estava sob intervenção do governo militar, conforme o ex-presidente da associação Sérgio Gottardi Paoliello. 

Com a instabilidade política dos anos 1960 e 70, os pecuaristas se sentiam inseguros para vender carne, mas eram obrigados pelos militares a oferecê-las a um preço determinado pelo governo. “A intenção do grupo era pegar o frigorífico para administrar, mas já havia uma definição, por isso não deu certo”, afirma Paoliello. Como os produtores já haviam se organizado, resolveram montar cooperativa para comercializar insumos e ferramentas a preços mais baixos que os praticados no comércio local. 

A Cobrac foi criada em 3 de outubro de 1965, de início em um prédio alugado na rua General Glicério e, posteriormente, em um imóvel adquirido na rua Bandeirantes, onde foi iniciada a primeira indústria da cooperativa: a produção de sal mineral para a nutrição animal, que atingiu seu auge nos anos 1990, chegando a ser o segundo maior fabricante e vendedor de sal mineral do País. 

QUALIDADE
“A qualidade do sal da Cobrac era tão grande que, quando o pessoal começou a fazer propaganda dele, falava que sal para engordar o gado era o da Cobrac”, relembra o produtor rural Alfredo Ferreira Neves Filho, de 87 anos, um dos primeiros associados da cooperativa. Ele relembra que, quando a Cobrac passou a armazenar a produção local de grãos, também fortaleceu o agricultor da região. “O produtor ganhou muito com a chegada da Cobrac, agregou valor ao setor produtivo, porque você produzia aqui, não tinha meio de estocar e não tinha para quem vender.”

Segundo Paoliello, a cooperativa crescia com o tempo, abrindo o leque de atividades, o que incluía também lojas no centro comercial da rua Conde Francisco Matarazzo, adquirido no começo da década de 1980 pelo fundador, sócio número 1 e primeiro presidente da Cobrac, Orlindo Tedeschi. 

Paoliello conta que o período em que a cooperativa teve seu crescimento mais intenso foi em meados dos anos 1980 e começo dos 90, quando a Cobrac arrendou máquina para beneficiamento de algodão, na época produzido na região. 

A pluma e o valor obtido com sua comercialização ficavam com o produto e o caroço, com a Cobrac, vendido a indústrias de óleo. Contudo, a produção de algodão em São Paulo foi enfraquecida com a abertura à importação do produto norte-americano, mais barato. Com prejuízos, produtores rurais substituíram o plantio com outras variedades, como a cana-de-açúcar.


A partir de 1997, desafio foi 
reorganizar saúde financeira

Depois de anos de crescimento, ampliação de atividades, e abertura de filiais em Andradina, Birigui, Mirandópolis e Três Lagoas, a Cobrac passou a enfrentar dificuldades financeiras. De acordo com o consultor e ex-presidente da cooperativa Sérgio Gottardi Paoliello, as crises econômicas nacionais, o fracasso de planos econômicos de governo, a derrocada da produção de algodão com a liberação da importação de concorrentes norte-americanos, e problemas na gestão da própria Cobrac foram os fatores que levaram à deterioração do quadro financeiro a partir de 1992. 

"Imagine que a cooperativa começou como um velocípede até virar um Boeing. Só que tiraram da cabine toda uma equipe de pilotos que sabiam o que estavam fazendo e colocaram um grupo de pilotos de teco-teco no lugar", compara Paoliello. 
Ele conta que o faturamento caiu, atividades foram fechadas, a administração da época não conseguia nem obedecer a uma exigência da Cetesb de tirar a fábrica de sal do centro da cidade para evitar poluição - a chuva atingia as pilhas de sais e carregava salmoura para os mananciais. 

DÍVIDAS
Em 1997, o então presidente da Cobrac Amauri Marques Ferreira, eleito em 1995, renunciou ao cargo e Paoliello, seu vice, assumiu o seu lugar. Ele conta que na época, a cooperativa tinha mais R$ 5 milhões em dívidas vencidas com bancos, Previdência, de origens trabalhistas e com o governo do Estado, fora valores de passivo contingenciado. 
Embora os imóveis que a Cobrac detinha até então estivessem avaliados em R$ 9,406 milhões, Paoliello acredita que o patrimônio estava hipervalorizado e não seria o suficiente para liquidar os valores já vencidos e as dívidas a vencer. 
A cooperativa passou a vender imóveis para sanear sua situação financeira e a procurar credores para renegociar outra parte das dívidas. 

A situação era tão crítica que, em dois anos, Paoliello se lembra de ter feito demissão de 400 funcionários. "Só fui resolver esse problema com esse cheque, em 2011, quando vendemos aquele terreno no centro da cidade", diz apontando para cheque guardado em sua mesa, com valor de R$ 6,06 milhões. Na época, a cooperativa vendeu uma área para o grupo Vic Properties, que pretendia instalar um shopping no local.

"Com essa venda, conseguimos liquidar a dívida bancária." Além de arcar com os valores vencidos, reorganizar as contas, a Cobrac conseguiu fazer investimentos na área agroindustrial, com modernização da estrutura. 

No ato da incorporação da Cobrac pela Coopercitrus, o único débito restante são 10 parcelas, equivalentes a R$ 750 mil, de 180 parcelamentos de uma dívida com a União. A perspectiva de Paoliello é de que a Coopercitrus consiga liquidar o valor até o final do ano. 

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