Monique Bueno é repórter da Folha da Região

Monique Bueno: Tudo pela vida

Trabalhar com a área da saúde e, quase que diariamente acompanhar as lamentações e dificuldades das pessoas em conseguir medicamentos, cirurgias e exames, não é fácil. A carga emocional costuma ser pesada e, em quase dez anos de Folha da Região, lembro que “desabei” duas vezes com histórias que presenciei bem de perto. A mais chocante foi a do caso do menino Guilherme Pereira da Silva, mostrada no final do ano de 2014. 

Na época, o menino tinha 5 anos e apenas um milagre poderia curá-lo de um linfoma de Burkitt, um tumor maligno e agressivo que crescia em sua boca a cada dia. Quando soubemos da história, ela já estava praticamente no fim. Guilherme já tinha sido submetido a sessões de quimioterapia no Hospital do Câncer de Barretos, mas, sem possibilidade de cura, voltou para casa.

Quando cheguei à casa da família, no bairro Paraíso, e vi a situação da criança, indaguei em pensamento: “Meu Deus, por quê?” O tumor era maior do que a própria cabeça de Guilherme. Seu olhar clamava por ajuda e, a todo momento, ele chorava de dor. Ao lado dele, o pai e a mãe, o mototaxista Luís Carlos Pereira, 40 anos na época, e a dona de casa Olga Regina Garcia da Silva, 36, tentavam amenizar o sofrimento com carinho, mas percebi que eles estavam em meio à escuridão, sem apoio.

Decidi mergulhar nessa história e tentar, de todas as formas, fazer com que essa criança recebesse algum atendimento especializado, nem que fosse o último. A primeira matéria foi publicada no dia 25 de outubro de 2014, mostrando a história de Guilherme, que comoveu os leitores e chegou ao conhecimento do advogado Francisco Tadeu Souza, que mora em São Paulo e é especialista em direitos médicos. Ele também entrou na “briga” e acionou a Justiça Federal, solicitando novas avaliações médicas do paciente. A Justiça chegou a conceder liminar determinando marcação de consulta no Itaci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil), órgão do Hospital das Clínicas, em São Paulo, com garantia de transporte e hospedagem dos pais do menino.

Na capital paulista, a conclusão foi de que o menino não tinha mais possibilidade de ser submetido a tratamento curativo. Desde que soubemos da história de Guilherme, foram produzidas dez matérias com muita tristeza e, ao mesmo tempo, alimentávamos a esperança de que uma reviravolta pudesse ocorrer. Mas, a batalha foi perdida e Guilherme morreu no dia 14 de novembro do mesmo ano, em um curto espaço de tempo, após o câncer ter se disseminado no organismo na criança. Nesse dia, eu não “vivi”, pois, para mim, criança não merecia sofrer, ainda mais, morrer. No entanto, quem somos nós para ir contra as vontades de Deus?

Só posso dizer que, depois de ter acompanhado todo esse sofrimento, tive que passar por uma consulta com cardiologista. No dia da morte da criança, meus batimentos cardíacos aceleraram e precisei ser submetida a um eletrocardiograma. O médico foi bem sincero comigo, disse que eu tinha que separar a vida profissional da pessoal para não me adoentar no futuro. Só que é praticamente impossível isso acontecer!

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