Moradora teve que fugir de uma residência do bairro após a caixa d’água do imóvel

Minha Casa Minha Vida realizou sonhos, mas também provocou problemas em Araçatuba

De 521 imóveis visitados pela Prefeitura, 364 apresentaram danos

Cinco bairros surgiram em Araçatuba devido ao “Minha Casa Minha Vida”. Além de uma moradia para muita gente, o programa trouxe também problemas para a cidade. Matéria publicada pela Folha da Região no dia 10 de setembro mostrou que algumas casas dos residenciais construídos pelo programa em Araçatuba tornaram-se motivo de preocupação por estarem sendo utilizadas para a prática de atos ilícitos. 

Apesar de haver aproximadamente dez mil pessoas aguardando a contemplação com um desses imóveis na cidade, são vários os relatos de casas abandonadas nesses empreendimentos. Em agosto, foram registrados pelo menos dois boletins de ocorrência envolvendo imóveis nesta situação no residencial Porto Real, o primeiro em Araçatuba. 

Na época, o capitão Cristian Takahashi, da Polícia Militar, afirmou que o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) recebe várias denúncias sobre esse problema nesses bairros. “Recebemos denúncias de imóveis abandonados nos bairros Porto Real, Águas Claras e Atlântico, os quais seriam utilizados para a prática de tráfico de drogas, para esconder procurados da Justiça e armas que posteriormente são utilizadas para prática de delitos”, disse ele, na ocasião. 

Questionada na época, a Caixa Econômica Federal afirmou não haver denúncias de imóveis nesta situação no município. “Informamos que não há denúncias a respeito de casas abandonadas nos empreendimentos da faixa 1 do programa ‘Minha Casa Minha Vida em Araçatuba’”, cita o banco, em nota, ignorando diversos boletins de ocorrência registrados na cidade.

ESTUDO
Uma pesquisa de alunos da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) mostrou que os residenciais são construídos sem estrutura de equipamentos essenciais, como creches, escolas e postos de saúde e com transporte público precário. “Infelizmente, para construir rapidamente as casas, o Minha Casa Minha Vida esquece-se dos equipamentos urbanos básicos, o que acaba causando o abandono”, avalia Paulo Stuart, um dos pesquisadores.

Três pontos são destacados como soluções. O primeiro é o transporte, como elemento de integração social e direito à cidade. O segundo é um parque linear, com opções como quadras esportivas, ciclovia, horta urbana, entre outros. O terceiro inclui equipamentos públicos como creches, escolas, bibliotecas, postos de saúde, centros de referência comunitária e espaço para o desenvolvimento do comércio local.

Pesquisa feita pela Prefeitura de Araçatuba apontou que, somente no Porto Real 2, 400 casas estão ocupadas pelos proprietários. Em cem delas, não foi encontrado ninguém; nove estão alugadas; dez foram cedidas (a outros ocupantes) e duas foram invadidas.

ESTRUTURAIS
Outro problema encontrado nas novas casas dos residenciais criados pelo “Minha Casa Minha Vida em Araçatuba” são estruturais. No mês passado, a Prefeitura enviou à Caixa relatório de ação de vistorias realizada no Porto Real 2, o último a ser entregue (em maio deste ano). 

Dos 521 imóveis visitados, 364 apresentaram problemas, ou seja, 70% do total pesquisado. A maior ocorrência é de vazamentos, afetando 180 moradias, seguida por 52 casas com infiltrações, 47 com problemas nos aquecedores solares e 85 classificados como “outros” no relatório.

Segundo a administração municipal, a iniciativa foi motivada pelo grande número de reclamações dos contemplados quanto a problemas de infraestrutura dos imóveis e denúncias de moradias irregulares, tais como venda e aluguel. A ação de vistorias foi realizada em julho deste ano, por aplicação de questionário. Reportagens da Folha também mostraram que moradores do residencial reclamam de problemas com asfalto.

ACIDENTE
Em 10 de setembro, uma moradora teve que fugir de uma residência do bairro após a caixa d’água do imóvel desabar no meio de sua sala. O fato aconteceu por volta das 5h, na rua Igor Dourado e Castro. Na época, ela afirmou que estava dormindo, quando acordou assustada com um barulho dentro de sua casa. A moradora tem duas crianças filhas, uma de 8 anos e outra de 3, que precisa de cuidados especiais. A Lomy Engenharia, que construiu os imóveis, prestou atendimento e reconstruiu o teto da casa.

Sobre os problemas constantes, a Prefeitura afirmou que já acionou a Caixa e a Lomy. “Fizemos um diagnóstico da situação e encaminhamos ao prefeito, que, posteriormente, enviou à Caixa e à construtora para providências. A Caixa é a responsável pelo atendimento aos mutuários dos imóveis e somente esta instituição tem a competência para tomar medidas judiciais”, disse Maria Cristina Domingues, secretária municipal de Assistência Social.


Falhas no Porto Real 2 estão sendo resolvidas, diz Lomy

Procurada pela reportagem, a Lomy Engenharia, que construiu o Porto Real 2, afirmou que tem feito o possível para resolver todos os problemas estruturais encontrados poucos meses após a entrega. “Desde a entrega do residencial, a Lomy destacou um grupo de colaboradores composto por engenheiros, mestres de obra e operários para realizar, de maneira rápida e satisfatória, as vistorias e reparos referentes às reclamações recebidas pelos moradores do empreendimento”, explica a empresa, em nota.

E prossegue: “Este grupo permanece atuando à medida que as chamadas vão chegando. Ao receber as chaves, o morador recebe um manual descritivo que, além de trazer informações do seu novo imóvel, traz também informações sobre como entrar em contato com a construtora para tirar suas dúvidas e fazer suas reclamações”. 

A empresa também fala sobre a forma de interação com os moradores dos conjuntos. “Possuímos vários canais de atendimento, como 0800, site, rede sociais e atendemos mediante agendamento com o cliente. Todos os clientes são atendidos e suas casas são vistoriadas por engenheiros. 

No caso de procedência da reclamação, os reparos são prontamente realizados. Após a realização do reparo, o cliente/morador avalia o serviço executado e atesta que o serviço foi executado a contento por escrito assinando o termo de recebimento do SAT (Serviço de Assistência Técnica) em sua residência”, completa a nota da Lomy.

VEJA AQUI OUTRAS REPORTAGENS SOBRE A SÉRIE
'MINHA CASA MINHA VIDA: O PROGRAMA E A CONTRADIÇÃO'

LINK CURTO: http://folha.fr/1.368407