Marilurdes Martins Campezi, de Araçatuba, é membro da UBE (União Brasileira de Escritores)

Marilurdes Martins Campezi: Tudo o que ficou

O que você fez daquilo que lhe fizeram?” (Sartre)
 
Fui criança em Araçatuba. E como muitos de nós, brinquei nas ruas, na alegria de pisar enxurradas após a chuva, de chutar latinhas misteriosas jogadas por descuidados cidadãos, de pular cordas e amarelinhas, de correr atrás da bola nos jogos de “bétia”, de desviar-me para não ser “queimada” pelos jogadores da outra equipe, de equilibrar-me nas muretas e nas sarjetas ou até nas pernas de pau construídas pelo meu pai, de rodar aros pelas calçadas do quarteirão, de aventurar-me em carrinho de rolimã, de brincar de circo como bailarina do Havaí, de jogos dos tesouros escondidos e nunca mais encontrados; brincar de correr ao pique, cantar na roda e até de conversar no improvisado telefone de latinhas unidas por um fio de linha. Havia muitas outras brincadeiras, tradicionais ou inventadas, adaptadas por nós, dependendo da imaginação que permeava por entre a infância livre e solta. 
 
Era um constante sonhar que continuava na praça Rui Barbosa, aos domingos, em volta do coreto, com pulos de alegria aos sons da banda, com seu incomparável trombone dando ritmo aos nossos passos. 
 
Outras ocasiões em que exerci meu direito de ser criança feliz foram as matinês nos carnavais infantis do Araçatuba Clube, Clubes dos Bancários ou do Coríntians; os recreios e os bancos escolares da Escola da Vila Mendonça e do primeiríssimo Grupo Escolar Cristiano Olsen; a catequese e as missas (brincadeiras mais sérias), os programas musicais infantis, das rádios Cultura ( Buzina do Totó) e Difusora (Calouros do Bolinha), os seriados dos Cines São Francisco e Bandeirantes. 
 
Universo infantil de melhor qualidade foi explorado por mim e por meus amigos, em espaços amplos e variados. Amigos que se rodeavam, interagiam, cada um deles deixando marcas de sua passagem para que eu aprendesse a vida.
 
Tudo isso resgatei a partir da frase de Sartre, que encabeça esta crônica, pois fiquei a pensar no que me fizeram todos os que me rodearam neste meu caminhar, porém, mais ainda, pensar no que eu fiz com o que me fizeram. É um tanto complicado, por isso resolvi escrever somente sobre os amigos de minha infância, deixando de lado os da adolescência, da juventude, da idade adulta e, no momento, da velhice. Os primeiros amigos, concluí, foram presentes de Deus para que a criança permanecesse em mim com todos os atributos oferecidos por eles. 
 
O que me fizeram aqueles amigos? O que fiz e faço eu com sua contribuição?
Ensinaram-me, com certeza, a felicidade da convivência, a ousadia, a constância, permitir-me sonhar, extasiar-me com momentos, fantasiar para sobreviver, guardar segredos, reconhecer a agressividade, discernir e escolher entre a verdade e a mentira, não ter vergonha de mostrar ternura e uma listagem infinita de lições que me trouxeram até aqui. Tudo isso eu exploro, nos mais inusitados momentos. Tenho certeza de que o mesmo ocorre com você. 
 
Sinto-me, agora, como se conseguisse segurar minha infância e seus ensinamentos junto ao meu colo. Lembro-me dos nomes daquelas crianças, dos seus olhos, das suas vozes, de seus toques.
 
A eles deixo meu recado: vocês conseguiram permanecer comigo em minha paisagem espiritual, sem saudosismos, mas com o reconhecimento do porquê de terem passado por minha vida nesta terra de calor. Estão inseridos na memória de Araçatuba por meio de outras memórias, com certeza. Obrigada, crianças de outrora, pela adulta que me tornei e por manterem aquela menina dentro de mim.
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