Marcelo Rech é presidente da Associação Nacional de Jornais e vice-presidente Editorial do Grupo RBS

Marcelo Rech: Mensageiros presos

Em 20 de dezembro passado, dois repórteres de TV na Somália, Ahmed Sa'Ed e Abdirahman Mohamed Ege, foram presos sob a acusação de produção de notícias falsas ao denunciarem a corrupção na prefeitura da cidade portuária de Berbera. Os dois estão entre os 262 jornalistas que atravessam este fim de ano em prisões em razão da missão de buscar e divulgar a verdade, segundo o Comitê para Proteção de Jornalistas.
 
Revidar com a expressão fake news para desmerecer o noticiário apurado e editado por jornalistas e veículos profissionais é o novo efeito perverso da difusão de inverdades via redes sociais e grupos de Whatsapp. Se 2016 foi o ano em que se acordou para a doença das notícias falsas, em 2017 a epidemia de desinformações fabricadas em ritmo industrial se espalhou em escala planetária. Contribui na disseminação o fato de governantes - e Donald Trump é apenas o mais notório - carimbarem agora como "notícias falsas" o noticiário que lhes causa dissabor.
 
A distorção sobre a real natureza de notícias propositadamente falsificadas alimenta regimes autoritários mundo afora. Depois da tentativa de golpe na Turquia, o governo de Recep Erdogan dispensou a maquiagem de democracia, brandiu o discurso das fake news e se tornou campeão mundial de prisões de jornalistas, com 73 atrás da grades. Em segundo lugar, está a China, com 41 presos.
 
Segundo o CPJ, nunca tantos jornalistas estiveram na cadeia desde o início do censo, em 1992. O recorde reflete uma era de valores revirados: profissionais da verdade são aprisionados com crescente frequência enquanto os profissionais da falsificação ganham dinheiro e poder com seu trabalho sujo.
 
Só há uma vacina contra a epidemia, e ela não virá de governos incomodados pelo noticiário independente. O antídoto está no reconhecimento de jornalistas e meios de comunicação como as fontes mais confiáveis de notícias. Mesmo que nem sempre sejam precisos, jornalistas e veículos profissionais vivem do acerto e da pluralidade, e não do erro e do sectarismo, como a verdadeira praga das notícias falsas e das bolhas de ódio nas redes.
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