Márcio Bracioli é repórter da Folha da Região

Márcio Bracioli: O sábado que não terminou

Sábado, 12 de março de 2016. Recém-saído de um plantão de final de semana na redação, fui para minha casa, em Birigui. Tomei banho, troquei-me, busquei a minha namorada da época e retornava para Araçatuba. Estávamos indo para o Interart (Feira Internacional de Artesanato), que ocorreria naquele final de semana.

Cruzamos a rodovia Marechal Rondon (SP-300) e entramos na avenida Brasília. Pouco trânsito. A cidade estava calma. Mas, quando cheguei ao cruzamento com a Pompeu de Toledo, percebi que algo estava estranho. Pessoas corriam de lá pra cá. Um carro estava sobre a calçada e outro, jogado no canteiro central. O que estava acontecendo?

A curiosidade que permeia a maioria dos jornalistas estava me matando. Enquanto me aproximava, policiais chegavam correndo, isolavam a área e cada vez mais gente se aglomerava. O que faria? Ignoraria o fato, iria para o evento e curtiria o sábado ou deveria parar e apurar se era grave? Parei. Escolhi essa profissão por gostar dela e não por falta de opção. O dia que esse instinto não estiver mais em mim, abandono a profissão.

Desci do carro e fui para o meio do bolo com meu crachá da Folha da Região na mão. Antes de me identificar para alguma autoridade e descobrir o que tinha ocorrido, observei a cena, o rosto dos envolvidos e o que diziam as pessoas. “Acho que morreu”, disse uma. “Ele não está se mexendo mesmo”, respondeu outra. Olhei para dentro do carro, um Corolla cinza, e realmente vi uma pessoa lá parada, inerte, vitimada pelo acidente.

O caso era sério. Vi uns colegas da imprensa, conversamos e descobri o ocorrido: um rapaz dirigindo um Mustang rasgou a avenida a quase 200 km/h e acertou a lateral do carro de um idoso, que morreu na hora. Já me senti mal. Apesar do imaginário popular de que somos “urubus”, o fato de termos curiosidade e publicarmos noticias assim não quer dizer que gostamos. Eu detesto falar sobre mortes de pessoas inocentes. A empatia traz todo sentimento para meu particular. Penso que poderia ser meu pai, um amigo... minha noite estava acabando ali.

Munido de um smartphone, tirei fotos. Cruzei a linha de segurança colocada pela polícia, juntei-me aos demais da imprensa e fui conversar com os oficiais. Peguei as informações, nome da vítima, o que teria ocorrido e todos os detalhes. Liguei para o José Marcos Taveira, editor-executivo e de internet, que me ajudou na notícia, colocando tudo no site da Folha.

Em pouco tempo, o ocorrido já estava on-line e circulando as redes sociais de forma viral. Cumpri com meu dever jornalístico. Mas não estava bem e o impacto daquele acidente já estava me cutucando internamente. Quando deixava o local para voltar ao meu programa de sábado, uma pessoa da família da vítima chegou desesperada, chorando, ao meu lado e perguntou o que tinha ocorrido. Menti. Disse que também não sabia. Não teria suporte emocional para ser portador de uma notícia tão ruim de forma pessoal.

Deixei o local com a pressão baixa, pálido, boca seca, ofegante e passando mal. Minha noite terminou. Fomos para o evento e eu não consegui curtir, fiquei de cara fechada. Mesmo com quase 15 anos de carreira e várias matérias trágicas, essa notícia, por mais simples que possa parecer, me marcou porque, além de relatá-la, vivenciei cada detalhe. Até hoje, sinto aquela sensação ruim, aquele vazio. Torço apenas pela Justiça nesse caso e que mais mortes como essa sejam evitadas.

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