O diretor Mauro Júnior (destaque) diz que realidade faz com que atores não vivam da profissão

Luta pela profissionalização

Companhia teatral premiada revela desafio de manter atividade

Quando o grupo teatral Cia. do Blefe foi criado, há pouco mais de dois anos, o objetivo era possibilitar a profissionalização do artista na região — ou seja, que os integrantes conseguissem se sustentar com o trabalho das apresentações e, ao mesmo tempo, pudessem produzir novas montagens. Porém, a realidade do interior oferece obstáculos para que os atores vivam da profissão e possam bancar a concretização de projetos, que acabam muitas vezes na gaveta à espera de recursos, como conta o diretor Mauro Júnior. 

Parte do repertório planejado pela Cia. diz respeito a peças que formarão a chamada “Trilogia do Poder”. O início desse trabalho foi dado com a peça “Braseiro”, uma tragédia contemporânea ambientada no nordeste brasileiro, com texto de Marcos Barbosa. O espetáculo chegou a ter uma curta temporada no Centro Compartilhado de Criação, em São Paulo. Circulou na região, foi levada para Goiânia e rendeu prêmios para o grupo. A segunda parte da trilogia será composta pela peça “Escorial”, do dramaturgo belga Michel de Ghelderode. A intenção da Cia. do Blefe é montá-la até o final do ano, o que ainda depende da obtenção de verbas. O grupo elaborou outros dois projetos fora da trilogia, que também precisam de recursos para sair do papel. 

IMPASSES
Segundo Júnior, uma das dificuldades para a produção teatral é que, embora existam ações de incentivo por parte do poder público, nem sempre são praticadas em Araçatuba. “Foram mais de sete meses de governo e a Secretaria municipal de Cultura, até agora, não se posicionou em relação aos editais de fomento.” Ele acredita que, além da ausência de lançamento do concurso de apoio à produção teatral em âmbito municipal até o momento, faltam informações sobre o assunto. “Eu pergunto, qual é a prioridade? A nossa é produzir.” 

Outro impasse para a profissionalização do trabalho teatral na cidade é a falta da cultura de bilheteria, segundo o diretor. Grande parte do público está tão acostumada com a gratuidade que há um estranhamento quando a entrada para apresentações cênicas são cobradas. Apesar disso, a Cia. do Blefe apostará em uma experiência como teste em relação ao incentivo à prática de bilheteria. “Porque a gente também não quer ser essa companhia de edital. A gente quer produzir”, afirma Júnior.

O grupo fará duas apresentações do espetáculo “Braseiro” nos dias 2 e 3 de setembro, às 20h30, no Teatro Castro Alves. A companhia está vendendo convites antecipados por R$ 10 e cobrará R$ 20 na data das encenações. Metade do valor obtido será reservado para financiar a montagem de “Escorial”, o restante será direcionado para pagar a equipe. 
Embora existam políticas de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, que permite que empresas apliquem parte do IR (Imposto de Renda) devido em ações culturais, Junior também percebe que falta conhecimento por parte de empreendedores na região sobre o assunto. Com isso, ainda não é praticada a parceria entre empresários e grupos artísticos, o que também poderia ajudar na profissionalização do teatro em Araçatuba e no financiamento de novas montagens. 

TRABALHO
Apesar das dificuldades oferecidas pela realidade do interior, a companhia se esforça para lançar e dar continuidade às apresentações de seus projetos e já conta com dois espetáculos produzidos. Com cenografia minimalista, figurinos em tom terroso e diálogo com a linguagem cinematográfica, o espetáculo Braseiro conta a história de uma família nordestina que busca uma forma de salvar o primogênito, flagrado praticando roubo em terras de um inimigo da família. A peça estreou em 2015 e fala sobre pequenos poderes. O grupo também desenvolveu o espetáculo teatral de rua “Folia dos Reis”, a partir de uma proposição do Sesc (Serviço Social do Comércio) Birigui. 

A montagem estreou em dezembro de 2016. Ambos os trabalhos tiveram seu desenvolvimento marcado pela abertura do processo de criação a artistas e não artistas. “É uma das dinâmicas do grupo. Acho que se formos falar de uma identidade da Cia. do Blefe, essa abertura seria a identidade.” 

A própria companhia surgiu em abril de 2015 a partir do desenvolvimento do núcleo de residência artística em Araçatuba, por meio do Programa Oficinas Culturais do Estado de São Paulo, gerenciado pela Poiesis (Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura). Atualmente,conta com oito integrantes fixos, artistas com diferentes bagagens e faixas etárias, todos moradores de cidades da região. 

Editais de cultura serão lançados
e vão abranger outras modalidades

A secretária municipal de Cultura, Tieza Marques de Oliveira, informou que os editais do Fundo Municipal de Apoio à Cultura estão em fase final de tramitação legal. Os processos deverão apoiar trabalhos de áreas de fomento, formação e difusão em artes plásticas, literatura, música, teatro, dança e memória. “Serão disponibilizados recursos da ordem de R$ 500 mil do Fundo Municipal de Apoio à Cultura, com valores variados de acordo com os projetos”, adianta. A secretaria não deu uma previsão de data para o lançamento dos editais. 

Segundo a secretaria, os concursos ainda não foram abertos em razão do processo de análise e readequação de metas da pasta para o ano. Ela destaca que os editais são “uma modalidade de contratação de serviços muito apreciada pelas três esferas de governo porque, embora mais trabalhosa, é mais democrática, permite contemplar várias linguagens, propostas e projetos da comunidade promotora de cultura”. 

APOIO
De acordo com Tieza, a secretaria tem apoiado a produção artística no município por meio de parcerias com Secretaria de Estado da Cultura, Sesc, academias e centros culturais. E ainda: cessão de espaços culturais para apresentações e ensaios, promoção de eventos, apresentações dos programas da pasta; apoio na infraestrutura de eventos, festivais e espetáculos; realização de eventos em praças públicas; divulgação. O orçamento previsto para a cultura em 2017 é de R$ 6.766.070,66. 

Entre as despesas por secretaria neste ano em Araçatuba (com base em dados do primeiro quadrimestre de 2017 e o mesmo período de 2016), a maior diminuição nos valores aplicados foi a da Cultura, com recuo de 46,83%. A pasta pagou R$ 769.330,38 entre janeiro a abril deste ano, ante R$ 1.447.015,33 dos quatro primeiros meses do anterior, conforme informações passadas pelo município durante audiência pública de finanças do primeiro quadrimestre. 

“O fato de um gasto menor no primeiro semestre não significa que há problemas na execução do orçamento, elaborado na gestão anterior e sempre aquém das necessidades. Muito está sendo reavaliado, reestruturado, reorganizado para que se possa fazer mais, respeitando o dinheiro público, sendo justo na sua utilização e promovendo o que precisa ser oferecido ao público”, diz a secretária de Cultura. 

VIRADA
Tieza esclarece que houve revisão de alguns contratos a favor do município, como no caso do Balé Municipal. A não realização da Virada Cultural Paulista gerou uma reserva que será utilizada com iniciativas locais no segundo semestre, conforme Tieza. Ela considera imprescindível dar atenção à parte física de espaços culturais, que apresentavam problemas acentuados.

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