Larissa Alves é membro da UBE (União Brasileira dos Escritores)

Larissa Alves: Vá ambivalência valendo valor

Ela despiu a alma e, de repente, havia muita gente ao seu redor. Então, ela se trancou em casa por uma semana e muitos laços se quebraram. Porque ela era transparência, mas necessitava da oração.
 
Ela arreganhou unhas e dentes por sua independência. Mas derramou todas as lágrimas no colo amigo e aceitou a mão que oferecia ajuda. Porque ela era dignidade, mas também era necessidade.
 
Ela se derramou de saudade naquela madrugada inteira, mas abriu o sorriso pela manhã. Porque ela é o vazio que dói, mas também é empatia.
 
Ela era de Finanças, mas também era o bom humor. Porque ela é trabalho sério, sem esquecer de ser Humanas. 
 
Ela era de se indignar com as notícias e também sorria para o cachorro de lacinhos. Porque ela é de filosofias, sem precisar ser amargura.
 
Ela era a falta de tantas coisas, mas também era a brincadeira alegre. Porque existe um poço de águas escuras dentro dela, mas aprendeu que não é necessário se derramar.
 
Ela era o silêncio, dias e dias e, de repente, era a conversa animada ao telefone. Porque ela é a busca do próprio crescimento, mas também é a gratidão.
 
Ela podia discursar por horas a respeito das injustiças, mas também era a palavra de incentivo. Porque ela é olhos e ouvidos, mas também quer ver o melhor das pessoas.
 
Ela procurava pela palavra boa sempre que podia, mas também era a mágoa que levava anos para cicatrizar. Porque ela quer ser semente boa no caminho, mas terremotos acontecem dentro de si.
 
Ela era a angústia, a ansiedade, a insegurança, mas também era quem abria caminhos para um ou outro passar. Porque ela é o joelho ralado e também, a brincadeira de roda.
 
Ela era o coração pisado, mas também era o sorriso no rosto. Porque ela é a vontade de viver todo o universo e também, o instante.
 
Ela era a presença plena no momento de alegria e também era a ausência aos eventos sociais. Porque ela é intensa de sentimentos e também, vazia de política.
 
Ela era a alma aberta e também era o mistério. Porque ela é fé, mas está cansada da traição.
 
Ela era do barulho da música e risadas e também era de estradas de terra vazias e praias no inverno. Porque ela não é de rejeitar o momento.
 
Ela era de compreender a dor sem deixar de corresponder com alegria ao abraço do reencontro. Porque ela compreende a perda, mas sabe que não se deve desperdiçar a presença. 
 
Ela era de viver intensamente, mas também era de saber da morte. Porque ela é mulher e também é mãe.
 
Ela era de procurar certezas e também era quem normalmente duvidava. Porque ela quer olhar o mundo do colo do Pai e também é a menina que olha as estrelas.
 
Ela era de exercitar a mente com a matemática e também era de chorar escondido. Porque ela era de ter um relógio no pulso e um livro de Drummond escondido na bolsa.
 
Ela era de impaciências e também era de perder o horário acolhendo outros prantos. Porque ela é de comer arroz com feijão, mas também, de ler Clarice na fila da lotérica.
 
Ela era de provocar carinho e também provocar nojo. Porque ela é de seriedades sem ficar presa em uma caixinha.
 
Era o profundo das experiências e a leveza dos sentimentos infantis. 
 
Ela era de defender singularidades e também defender a união. Porque ela é "solitude", mas também sabe ser plural.
 
Ela era de reunir e também era de afastar. Porque ela é feita de vidro transparente, que pisado, tanto quebra como corta.
 
Fez sua alma transparente. Mas não permite a quem queria entrar ali de salto alto. E tinha gente que a amava pelo que era. E teve quem a odiou pelos mesmos motivos.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.365784