Larissa Alves é membro da UBE (União Brasileira dos Escritores)

Larissa Alves: Um lugar para chamar de seu

Jamais compreenderia os caminhos da lógica que se formavam na mente e no coração de uma criança que trilhariam pela vida afora. A psicologia tentava. Mas não era suficientemente eficiente. Ali estava aquela criança a ver o pai amado a gritar diante da televisão nova. 
 
Olhava para o pai, a gritar e a fazer caretas, torcendo pelo time de futebol, na sala do apartamento, no bairro Santana, em São Paulo. Lá, morava no primeiro andar de frente, que tinha uma sacada por onde se via a avenida e uma melhor amiga no nono andar, que era perto de tudo o que lhe constituía a rotina da vida: o colégio de freiras; a casa da professora de piano; a escola de natação; a escola de inglês logo ao pé da ladeira; a escola de balé que ficava quase ao lado da casa onde funcionava a escolinha primária que já era passado à altura deste conto, perto também da padaria logo na esquina; outra, pouco mais abaixo, virando à direita na banquinha de jornais onde comprava as figurinhas de seu álbum; o mercado Pastorinho e o caminho que fazia pela rua de trás, que era em descida e fazia melhor quando carregava os sacos de compras. 
 
O pai já não lhe carregava no colo. Não lhe levava pra lá e pra cá. Existia sempre uma sombra que ela ainda não tinha palavras para definir. Esta sombra e este afastamento se refletiam de várias formas em sua vida. 
 
Faziam-na sentir-se inadequada e culpada. E não sabia o porquê. E não saber o porquê a deixava angustiada. E da angústia nascia a irritabilidade. E assim foi sendo dito pela família que a menina não era fácil e tinha um temperamento forte. O que só agravou o distanciamento e o vazio. E a sensação de abandono. E de não pertencer a nenhum lugar. 
 
Enfrentava, com esta confusão de sentimentos, as piadas, o deboche e a estranheza que causava toda vez que precisava falar de seu lugar de nascimento. Nascera no interior do Paraná e não conseguia explicar este fato às parceiras de sua idade.
 
Era como se tivesse nascido em lugar nenhum e, por conseguinte, não pertencia a lugar nenhum. Não era como sua amiga Cristina, que nascera em Pernambuco, que era sempre lembrado na escola nas aulas de história, quando evocavam algum personagem importante ou às praias paradisíacas ou às fabulosas histórias que a amiga trazia sempre de suas férias.
 
Não. Seu Paraná não era assim. 
 
E quando ia de férias, também não encontrava lugar. Sua família de lá não conseguia compreender o que era morar em São Paulo, de frente a uma avenida de asfalto, em um apartamento de prédio alto e brincar apenas em um pátio de cimento e lajotas. Não compreendia, como ela não sabia subir em árvores, como não conhecia as flores, como não sabia fazer pão. 
 
Uma vez tentou perguntar à mãe como era aquela cidade para onde nunca tinham retornado e ela apenas lhe respondeu, ríspida: “Não quero falar disso. Não tenho boas lembranças”.
 
Sentiu-se culpada e rejeitada. Isso lhe deu raiva e estava farta de sentir raiva sem nem saber o porquê.
 
Voltou a atenção ao pai. Feliz, uma felicidade furiosa quando o gol aconteceu e ele saiu à sacada para sacudir uma toalha de banho em forma de bandeira e a estourar rojões.
 
— Pai, quem é palmeirense nasceu em Palmeiras?
 
— Não.
 
— Então, vou ser palmeirense.
 
E foi assim que um time de futebol conseguiu lhe trazer paz e algum pertencimento. O Palmeiras se tornou seu redentor e o assunto nunca mais lhe causou dor. Em seus documentos, podia estar escrito que nascera em Sertanópolis. Mas foi apenas aos oito anos que escolheu sua Pátria e teve um lugar para chamar de seu.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.360329