Larissa Alves é membro da UBE (União Brasileira dos Escritores)

Larissa Alves: Um cachorro que virou cão

Aspirou o aroma de café que tomava todo o ambiente. O perfume da bebida quente ia afastando o cheiro do inverno que ainda entrava na casa, apesar de estar toda fechada. Olhou para o avô, que afastou o banquinho de madeira tosca, separou uma caneca e o copo americano - tomava café apenas naquele copo, dizia que tinha outro sabor. Percebeu o arrastar da perna e a leve dificuldade com que movimentava o braço e firmava o punho.
 
Virava-se bem, mas percebia-se os sinais do acidente que sofrera anos atrás. 
 
- Menina, são nestes dias de inverno que a idade se mostra. E ri da gente, sabe? Como velha matreira, que espia pelas esquinas, ri-se de nós e de todas as certezas e esperanças que tivemos nesta vida. Oxe menina. É deste jeito assim, que é. 
 
- Hum, hum. A menina estava acostumada àquele jeito de falar, meio caipora, meio filosofia. E contentava-se em ficar ali, saborear o café e encher a boca de pão de queijo.
 
- Entendeu, mesmo? Assim não me parece. Deixa eu lhe falar.
 
- Era um cachorro machucado. Era sim. Tinha sido um filhote abandonado. Sabe-se lá o que foi que viveu e viu pelas ruas. Eu o recolhi, mas já tinha tempo passado. Era fiel, assim parecia. E brabo, muito brabo e ciumento com os demais. Defendia o território. Me fazia dormir tranquilo, sabia que nada, nem ninguém, entraria no terreno sem que ele se desse conta.
 
- E então... teve o dia em que fugiu. Foi num esquecimento do portão aberto. E não pude impedir que o carro o pegasse. Não foi culpa do motorista, menina. Foi de susto. Ninguém poderia evitar.
 
- Trouxe o bicho pra dentro. Gania, agitava as patas e o pescoço. E os dentes procuravam qualquer coisa para cravar, como doido. 
 
- E eu tive misericórdia, menina. Via o sofrimento naqueles olhos castanhos dele.
 
- A ferida sarou. A ferida do corpo. Mas o bicho continuou brabo como o cão. Perdoe a ironia. Era assim. Brabo demais.
 
- Tive que prendê-lo na corrente. Não tinha outro jeito. Esperei. Esperei que voltasse a ser o companheiro fiel que era antes.
 
- Mas isso não aconteceu, menina.
 
- Fui teimoso e insisti.
 
- Chegava perto. Ele se agitava e arreganhava os dentes pra mim. 
 
- Prendi na corrente. Ele a forçava até quase se enforcar.
 
- Mesmo assim, eu não me esquecia do amigo fiel que tinha sido. E entendia a dor. E entendia o trauma. E pensava, é apenas um bicho assustado.
 
- E então teve aquele dia, minha menina. Aquele dia em que ele fez isto comigo. Eu me distraí. Eu me esqueci. Eu me deixei levar pela esperança e pela misericórdia. Eu cheguei perto demais. E foi no que deu. Ele agarrou minhas carnes. E destroçou parte de meu braço e pernas.
 
- Era um bicho machucado, menina. Merecia misericórdia. Mas eu não tive sabedoria. Tinha que ter sabido coisa melhor. Não foi culpa dele, de jeito nenhum. Mas quem se machucou fui eu. E é por causa disso que agora vivo assim, neste esforço, claudicando e derrubando xícaras de café. Ouve o que vou te dizer. Ouve bem. Cachorros machucados merecem misericórdia. Mas nunca permita que cheguem perto demais.
 
A moça levantou os olhos. Pensou um pouco. E então perguntou ao avô:
 
- Ainda estamos falando de cachorros?
 
O homem de cabelos e sobrancelhas brancas afastou um pouco o copo de café da boca e disse:
 
- Essa vida precisa de coragem e precisa de misericórdia. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra. É preciso sabedoria. Ser romântico é uma coisa. Ser imprudente é outra. Homens também podem ser como bicho. Bicho machucado sempre ataca. Cachorros podem ser mantidos em correntes curtas. Homens, não.
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