Larissa Alves é membro da UBE (União Brasileira dos Escritores)

Larissa Alves: Outono

O sol ainda está tímido. São dias de outono. Vivemos dias esperando pelo inverno. Vivemos dias... dia a dia é assim. O sol ainda não aquece tanto. Não sei se é por conta disso ou por conta de outras rimas malconstruídas, não sei te dizer o porquê, ó menino: ainda faz frio demais pro meu gosto.

Sinto falta do sol verdadeiramente queimando meu rosto, quando ando por estes caminhos passo a passo, pisando o chão batido. Pisando o chão e deixando o passado pra trás... passo a passo, fazendo estes caminhos, refazendo caminhos que nem fui eu quem abriu, recolhendo os pedacinhos de pão. 

Ainda faz um tanto de frio e é em dia assim que faz vendaval na alma, que me some o chão. Como se o tapete da porta da cozinha escorregasse no piso — aquele mesmo “tapetin” que a mãe da gente já reclamava do perigo e que a gente ainda põe ali só por teimosia. Há dias assim, que me fogem o chão e esse frio de que te falo alcança até a alma e dói por lá.

E hoje pensei que, apesar do caminho que a gente precisa fazer, dia a dia assim: passo a passo, assim como tem de ser... Não é de caminho que quero pensar. Caminho fala muito de paz e de responsabilidade. Falar de caminho acaba por falar de direção e de escolhas. Caminho fala de curvas e de esquinas... E acaba falando dessas saudades ou arrependimentos que a gente carrega, sabe? Não quero falar.

E, então, eu te digo que vou deixar o caminho pra lá um tantin... Tô precisando sair da janela. Tô precisando do fogo aceso e do café fresco passando e enchendo a casa de perfume.

Tô precisando amassar o pão e depois... tirar do forno, sem queimar a mão.
E depois, lambuzar de manteiga fresca. E depois, chamar menino pro café. Tirar menino do terreiro, do meio da brincadeira, mandar menino pro banho, se lavar. Tô precisando me sentar à mesa, ver comadre chegar. Sair da janela e receber o abraço.

Tô precisando dum dedo de prosa. E hoje, já larguei um tanto o caminho, menino. Se você soubesse... Faço até pão. Se soubesse e se fosse pra contar... tem coisas da banda daqui, que nem todo mundo da banda de lá, iria acreditar... faço até pão, menino. Botar a mesa prum café. Essas coisas prosaicas... é de que tô precisando.

Nesses dias em que o sol não aquece tanto. Acender a chama do fogão. Pôr a toalha na mesa e receber a comadre pra falar da vida. A comadre que entende de crochê e entende de fazer pão.

A comadre que entende que pão precisa de tempo pra crescer e que crochê precisa dar ponto pra trás para que não seja só carreirinha, para que se transforme em tecido que aquece no inverno. A gente precisa ter comadres pra receber prum café... a gente precisa ter dessas comadres assim, nem...

Mas a verdade é que a vida é sempre um caminho. Nunca deixa de ser. Este caminho de que não quero falar. Caminho que se faz passo a passo.

Lançando sementes o tempo todo. Caminho onde se colhe o que dá de plantar e nascer.
E se a gente puder, segue colhendo trigo e fazendo pão. Mas e se, de repente, a vida não é só saudade? E se, de repente, a vida é boa, ó menino? E se fosse verão e o sol estivesse batendo, queimando na pele?

Também terá pelo caminho outros pedacinhos, que ficaram pra gente recolher, sabe? Pedacinhos de pão. Como João e Maria voltando pra casa. Também é bom de sair da janela, de acender o fogo, de fazer café. De pão, de prosa, de abraço, de encontros e de carinhos.

E no fim... no passo a passo. No dia a dia. Todo dia, sem pular nenhum... o que a gente espera é que, no final desta trilha, nos reste a paz.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.376117