José Marcos Taveira é editor-executivo e de internet da Folha da Região

José Marcos Taveira: Assassino, locutor, Papai Noel e merenda estragada

O jornalista percebe que está ficando velho quando tem muitas histórias para contar. E quando se chega a 30 anos de profissão, então, fica difícil escolher qual a mais marcante. Dos 45 anos da Folha, estive presente em 25. Acompanhei o crescimento do jornal diariamente e presenciei a sua importância em uma região tão grande quanto a de Araçatuba. 

Como repórter policial durante um bom tempo, nunca tive um dia considerado rotina. Pelo contrário. Imagine, por exemplo, acordar com o motorista do jornal à sua porta para que viajasse rapidamente para Monções, uma pequena cidade da região onde o prefeito tinha acabado de ser executado com oito tiros. Fiz isso na manhã de 23 de setembro de 1998, acreditando ser mais uma reportagem normal. Mas não era. 

Depois de todas as entrevistas sobre o crime, fui à casa do vice-prefeito na época e conversei com ele em sua sala, pois assumiria o comando do município. Ele me contou, entre outras coisas, que tinha medo de receber ameaças e seguiria o trabalho do antecessor. Tempos depois, foi preso como mandante do crime. E noticiamos, em primeira mão, que ele seria o principal suspeito. 

Ainda nessa época de repórter policial, presenciei diversos assassinatos, mas um deles ficou marcado em minha memória. Um homem tinha sido morto dentro de um bar, a tiros, na frente de todos os fregueses. Recebi a informação e corri para o local, em um início de noite. 
Um dos policiais fechava o estabelecimento por causa da grande movimentação de curiosos do lado de fora, quando cheguei. Passei pela abertura da porta de correr e entrei antes que fosse fechada. Ficamos eu, o policial, a dona do estabelecimento... e o cadáver. Ali mesmo fiz a minha entrevista — com os vivos, é claro. 

Em 1995, um parapsicólogo visitava Birigui, onde eu trabalhava na sucursal da Folha. Pedi, após a entrevista, que ele tentasse me fazer relaxar a ponto de não saber o que fazia naquele momento e pudesse relatar minha experiência ao leitor. E ele fez. 

Apenas conversando comigo, me fez achar que era um banco de praça. Deitei em três cadeiras e comecei a dizer para mim mesmo que era um banco de concreto, como ele pedia. Durante a sessão, o parapsicólogo tirou a cadeira que sustentava minhas costas e subiu em meu estômago, sem que eu tivesse qualquer apoio. A cena foi registrada pelo repórter-fotográfico Sérgio Menezes e saiu junto com a matéria no jornal. Pela primeira vez, eu fazia parte da notícia. 

Nesse mesmo ano, também em Birigui, entrevistei Osmar Santos, um dos maiores locutores esportivos daquela época. Um ano antes, ele sofreu um acidente de carro que o deixou entre a vida e a morte. Tudo aconteceu quando ia justamente para Birigui, visitar sua concessionária na época. Quando retornou à cidade, sem poder falar e com um dos lados do corpo paralisado, agradecia muito, com gestos, porque estava vivo e ao lado dos irmãos, que o acompanhavam. Conseguia dizer apenas “Gol”.

Após a entrevista, pedi para tirar uma foto ao lado dele. Me agachei ao seu lado, segurei sua mão esquerda e, antes do clique, disse a ele que era o maior locutor esportivo deste país e nunca deixaria de ser. Ele abriu um sorriso enorme e segurou a minha mão com força, levantando-a. Inesquecível! 

Em 2007, uma tragédia me marcou muito. Uma criança de 6 anos teve a cabeça esmagada pelo caminhão dirigido por um “Papai Noel” que entregava presentes na periferia de Araçatuba. Ela foi pegar uma boneca que caiu embaixo do veículo justamente quando começou a se mover. 

Em uma crônica de Natal publicada na Folha, escrevi a respeito e pedi ao “Papai Noel do caminhão” que, após o luto, continuasse a fazer tantas crianças felizes, que foi um triste acidente. Em 2016, recebi uma ligação na redação. Era o “Papai Noel do caminhão”. Ele me disse que havia encontrado a crônica na internet e que gostaria de me avisar que voltaria a fazer as crianças pobres mais felizes no Natal daquele ano. Não consigo descrever como fiquei feliz e, claro, emocionado. 

Mas e o momento mais marcante de todos deste velho jornalista? Sem sombra de dúvidas foi em 18 de novembro de 1998, quando mais de mil crianças foram intoxicadas com merenda servida em escolas de Birigui. O estacionamento da Santa Casa foi usado para atendimento devido à grande quantidade de gente, parte tomando soro. Parecia um campo de guerra. Eu tinha que ter cuidado para não pisar nos pacientes. 

Em certo momento, percebi que não podia ficar parado, apenas registrando os fatos. Então, coloquei meu caderno de anotações embaixo de um dos braços e fui ajudar, carregando colchões e auxiliando no que pudesse. No dia seguinte, a Folha fez uma edição especial. Guardo aquele dia em minha memória, além de um exemplar, já amarelado pelo tempo.
 
Ao comemorar esses 45 anos informando os leitores, tenho orgulho de dizer que faço parte da história da Folha, um dos primeiros jornais do Interior a ter uma versão digital. Aliás, a primeira cobertura on-line da Expô (Exposição Agropecuária de Araçatuba), uma das maiores feiras do País, foi feita pelo jornal. E eu estava lá. Foram momentos inesquecíveis de cobertura pela internet. Mas estas histórias ficam para próxima edição especial de aniversário, quem sabe a dos 50 anos.

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