José Hamilton Brito é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras

José Hamilton Brito: Um caso de amor em Portugal

— O desfibrilador, rápido.
 
Uma, duas vezes e a paciente não reagia. Lembrou-se do Chico:
 
“E eu que não creio, peço a Deus por minha gente”.
 
Adaptou-a para a situação; pediu pelo seu amor.
 
Conheceu-a em Lisboa, andando pelo Parque das Nações. Uma esbelta morena ia à sua frente. De repente, ela escorregou e caiu. Ajudou-a.
 
— Bom-dia, senhorita. Você está bem?
 
— Bom-dia. Estou, sim; foi só o susto. O senhor é brasileiro, que bom ter caído para ser socorrida por um conterrâneo; estava precisando falar um pouco do português da minha terra, sem sotaque.
 
— Heloisa é o meu nome, Eduardo.
 
— Como você sabe o meu nome?
 
— Está escrito no bolsinho da sua camisa, pode olhar.
 
— Caraca, mas que Zé Mané!
 
Aquela tarde, passaram andando pela cidade até se depararem com o famoso Vértigo Café, com os seus móveis da década de 1950 e 60, com o seu visual retro. Cansados. recolher-se-iam para o repouso. Estavam hospedados no mesmo hotel e... mesmo andar e... quartos contíguos.
 
Eduardo foi à luta...
 
— Heloisa, na minha geladeira, tenho um champanhe no ponto.
 
— Na minha também. Boa-noite.
 
— Tenho algumas garrafas de vinho do Porto e....
 
Ficou ali, com a maior cara de besta...
 
No outro dia, foram conhecer mais a linda cidade. Perguntaram ali mesmo no hotel um roteiro a seguir e foram sem preocupação. De repente, estavam no Culturgest. Trata-se de uma galeria de arte localizada no porão do maior banco Português, cuja sede , os de Lisboa acham feia.
 
Hora do almoço:
 
— Amigo, somos brasileiros. Pode nos indicar um bom restaurante?
 
— Claro, amo a sua terra. Minha filha está fazendo direito lá na Instituição Toledo, em Araçatuba, Estado de São Paulo. Recomendaram-me por tratar-se de uma conceituada faculdade. Ela também está estudando gramática e literatura com um renomado professor...ah! como é mesmo o nome... Dito... Dito Tomazo.
 
— Amigo, não seria Tito Damazo?
 
— O mesmo. Vocês o conhecem?
 
Das palavras aos fatos, chamou um táxi.
 
— Leve estes amigos até à rua Marquês de Fronteira, 37, restaurante Elevem e, por favor, diga ao Maitre que eles são meus convidados. Não esqueça dessa recomendação.
O restaurante tinha um salão de jantar confortável e moderno. A melhor vista da cidade para o Tejo.
 
— Heloísa, teremos que tomar vinho nacional.
 
Ah! Não quero nem saber, eu quero um....desgraçado!
 
Tomaram o vinho nacional acompanhado pelo bacalhau mais apetitoso e maravilhoso de suas vidas.
 
No que pensas, Edu?
 
— Quem é mais linda? Você ou a vista para o Rio?
 
— Por favor, a despesa.
 
— O quêêêê! Que despesa, querem me ver no olho da rua? Vocês são convidados do dono do restaurante. Aquele que chamou o táxi é o proprietário da casa.
 
Foram para o hotel e aquele champanhe da geladeira dele introduziu uma linda noite de amor. O da geladeira dela deu o arremate romântico que faltou devido à sofreguidão com a qual se atiraram sobre os límpidos lençóis.
 
Retornaram ao Brasil. Ele para o hospital, ela para a universidade, onde era mestra em Filosofia. 
 
E a vida caminhava como pediram a Deus, até o dia no qual ela teve um problema cardíaco na sala de aula.
 
Era caso de cirurgia . Foi chamado o cirurgião-chefe, pois o caso era complexo.
 
— Doutor Eduardo, comparecer urgente à sala de cirurgia.
 
Eduardo saiu na correria...
 
— Meu Deus, você?
 
Alegou as razões pelas quais não poderia fazer o atendimento.
 
Doutor, não dá mais tempo de convocar outro cirurgião, ou é o senhor ou ela morre.
 
Quando gritaram pela segunda vez pelo desfibrilador, ele, superando-se, deu o melhor de si e mais ainda: pediu, não por sua gente, mas por ela... .e por ele mesmo.
 
Ao sair do hospital, o dia estava radiante. Ele não percebeu.Tinha pedido, foi atendido, mas estava envergonhado.
 
Havia pedido muito mais por ele... Não poderia mais viver sem ela.
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