José Hamilton Brito é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras

José Hamilton Brito: Moleque do Córrego Azul

Era um recanto onde estava o canto que eu nasci. Não foi de terras de ninguém que vim ao mundo, foi nas nossas terras mesmo. Do recanto, a propriedade ia para o norte e para o sul, do leste para o leste e era onde os meu tios e meu pai reinavam. Mas, ali, no canto daquele recanto, eu reinei quase sozinho.
 
Eu fui um moleque do mato... Acho que existe ainda um pouco daquele moleque em mim. Gosto do cheiro da relva molhada, do barulho das águas do córrego azul rolando pelas pedras e fazendo aquelas bacias rasas onde minha mãe costumava lavar as roupas enquanto eu por ali nadava.
 
Na época da colheita do milho, era uma festa só: mulheres e crianças para todos os lados. Uns descascavam as espigas; outros ralavam-nas; outros, nos caldeirões preparando o caldo que seria depois empacotado para finalmente serem consumidos. Pamonhas doces ou salgadas, curau, bolinhos de milho, bolos de milho... era milho de todo jeito e forma.
 
Depois da festa, cada um com seu embornal, ia embora levando sempre alguma coisa. O embornal daquele tempo, hoje, está mais sofisticado: virou tapewere. Fui moleque de mato, mas nunca matei um passarinho, nunca lancei mão de arapucas, estilingues e que tais e se é pecado, este não devo. Devo outros, mas estes a Deus confesso, se bem que não precisava, pois ele viu.
 
Córrego Azul... ali, uma estação de estrada de ferro, Engenheiro Taveira. Alguns ainda se lembram, e eu também, do trem chegando ou partindo no período noturno, visão surreal na qual as luzes iluminavam a noite e a azáfama das pessoas com seus pertences procurando pelos seus lugares.
 
De maleta de mão a saco cheio de coisas a galinhas amarradas em fieiras e porcos pequenos berrando a mais não poder, era constituída a tripulação que, pelos trilhos, ia ou vinha de Araçatuba. Quantas vezes eu, por ali, passei aqueles momentos, vivi e que hoje, ao relembrá-los, sinto que a saudade bate forte, dói no peito, como diria um poeta... ou disse.
 
A viagem de trem, de Araçatuba a Lussanvira, era uma epopeia. Paisagens lindas oferecidas pelo rio Tietê, que acompanhavam a estrada de ferro. Passávamos por corredeiras, onde se podia ver os pescadores e os enormes peixes: pacu, dourado, curimbatá, cachara, todos sobre as pedras esperando pela limpeza de suas entranhas para melhor conservação. Depois, os peixes se misturavam aos passageiros e um clima divino — hoje, eu acho — era criado dentro do trem.
 
Era um pessoal tão importante que o trem parava ali mesmo para recebê-los ou deixá-los. Tudo aquilo foi embora, só eu fiquei com minhas lembranças.
 
A propósito, apego-me às palavras de Milionário e José Rico quando cantam:
 
“Vai lembrança não voltes mais/ para acalmar os meus ais/
Deste dilema de dor ... vai, para bem longe de mim
Não posso viver assim/ Devo esquecer este amor”.
 
Aí eu pergunto: o que seria de nós sem nossas lembranças? Se não temos um passado para contar, o que temos?
 
Tive grandes momentos durante toda a minha vida, grandes emoções, competições às quais venci na minha área de atividades, que era muito competitiva, Trabalhei na área de propaganda médica de grandes laboratórios farmacêuticos, mas minhas lembranças mais doces são do meu tempo de criança que não voltam mais.
 
Hoje, acordei com minhas lembranças aflorando, me enternecendo, me machucando, ora me trazendo felicidade, ora um tiquinho de tristeza. Geralmente nos tempos de Natal e Ano-Novo, fico meio assim, mas é assim mesmo que eu gosto de ficar.
 
Eu, com minhas lembranças, vocês com a de vocês e que todos tenhamos um próspero ano novo. Existe uma música cantada pela Alcione com frase: “o que eu digo à saudade quando ela chegar?”
Por isso, eu digo sempre:
 
“Obrigado senhor; derrama, senhor, derrama.
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