José Hamilton Brito é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras

José Hamilton Brito: Love is all

Ramiro, um belo moço, estava terminando o curso de medicina e se preparava para uma especialização em cirurgia cardiovascular. Desenvolto, sempre alegre, vivia rodeado de amigos e... de amigas.

Acontece que, às vésperas de ingressar na profissão para a qual havia se preparado com afinco, Ramiro nunca havia apresentado uma namorada para a família pelo simples motivo de nunca ter tido uma namorada, ou seja, alguém com quem estivesse em uma relação séria, comprometida.

Do amor, só conhecia o amor pela mamãe, pelo finado papai, pela irmã, pela sobrinha, pelos passarinhos, pelos peixinhos do seu aquário, por Jesus....
Por nunca fazer amor até aqueles, suspeitava-se que ele, sobre o assunto, tudo desconhecia.

A mãe, como todas, cobrava-lhe um posicionamento, uma perspectiva quanto ao futuro.

— Filho, veja bem, você é o único da sua turma que nunca aparece com uma namoradinha, as fotos que tira são sempre com amigos. Amor meu, a sua irmã já se definiu, casou-se, deu-me uma linda netinha e, sobretudo, a tranquilidade de ter constituído uma bela família com o genro que eu sempre pedi a Deus.

— Filho, quero o mesmo para você, quero vê-lo com uma linda família... querido, quero um neto.

De vez em quando, a mãe vinha com a mesma abordagem. Ele até concordava, pensava no assunto, fazia planos e tomava algumas iniciativas.

Conheceu Vera, linda morena, culta, psicóloga já com promissora carreira e pensou: “vou investir nesta relação”.

Investiu na relação, mas esqueceu de investir na moça e, entre adultos, o cume se atinge na cama. Melhor, se consolida na cama por mais que exista amor, no seu contexto romântico.

A mãe chegou a ter um vislumbre do que seria aquela família, o que aquela relação prometia e alegrou-se. Lá vem o meu neto.

Uma ou duas primaveras se passaram e Vera, um dia, delicadamente, perguntou:

— Ramiro, você me ama?

— Sim, eu amo você.

— Ramiro, você me deseja?

— Sim, o que mais quero é torná-la minha esposa.

— Ramiro, você quer me levar para a cama?

— Uai, para fazer o quê?

Estava tocando uma música chamada “Love is all”.

Vera teve plena consciência que esta história de que o amor é tudo só cabe em poesia, em música e em outras coisas mas, na merda da vida, é ledo engano.

— Ramiro, eu também te amo mas, em nome deste amor, e pelo seu bem, te digo adeus.

A pobre senhora, mãe do moço, teve ali a consciência de que havia algo de errado com o seu menino. Mas não imaginava o que pudesse ser.

Estavam reunidos mãe, genro e neta, quando a velha se dirigiu à filha e perguntou:

— Filha, o que pode estar acontecendo com o seu irmão. Ele parece que não quer casar, ter uma família. Estou preocupada com isso.

O genro ficou cabisbaixo, nada falou...

De repente, Ramiro se apresenta alegre, esbanjando otimismo, feliz da vida.

As esperanças da mãe renasceram:

— Ah, Deus! Obrigada.

A família sempre se reunia nas noites de quinta-feira para um jantar de confraternização. Uma mesa bem arranjada, com rica variedade de pratos, bons vinhos... tudo o que uma posição privilegiada pudesse proporcionar.

Quando todos estavam à mesa, Ramiro surge todo, todo. Estava acompanhado de um rapaz loiro, olhos azuis, corpo malhado, olhar inteligente e um belo sorriso na face.

— Mamãe, quero que saiba que a bela família eu estou providenciando pois, encontrei o amor da minha vida. Mas, mamãe, o neto vai ser impossível...

Diga-me você, caro leitor: o amor é tudo mesmo?

LINK CURTO: http://folha.fr/1.375018