José Hamilton Brito é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras

José Hamilton Brito: La nave vá...

Se um dia contarem a minha história, digam que eu vivi na época de... estas palavras foram palavras ditas por Aquiles, aquele do calcanhar. Pois bem, j’ accuse a mim mesmo de copiá-lo e dizer que se um dia falarem de mim, digam que eu me considerava um privilegiado por ter nascido na década de 1940.

Um pouco antes da bomba de Hiroshima e do final do conflito. De maneira direta, o fato influenciou o mundo e a mim; aconteceu que meu pai não me registrou no mês em que nasci, janeiro e sim em março para não correr o risco de ser convocado. O que importa é que sou aquariano de nascimento, cem anos na frente.

Assisti o nascimento do capitalismo e do socialismo e os partidários de uma e outra teoria levaram o mundo a sucessivos conflitos. Duas super potências disputaram a primazia e eu no meio da briga, com apenas três anos de idade, assistindo passivamente a uma guerra fria que em determinados momentos ficou um bocado quente... mas não ferveu. Eu estava já andando com meus próprios pés quando construíram o muro de Berlim.

Mas o bloco do lado de lá, dos “bandidos” gerou mocinhos como Leon Tolstoi, com 413 milhões de livros vendidos, que escreveu joias raras com Guerra e Paz e Ana Karenina.
A rivalidade entre árabes e judeus, que permanece até hoje, já existia desde a época em que Jesus saiu no tapa com os vendilhões do templo, que suspeita-se, eram os curintianos daquele tempo.
Um fato altamente gratificante foi que regimes democráticos sucederam as ditaduras no mundo, fazendo prevalecer os direitos do homem. Mas os homens que mais me interessavam naquele tempo eram Djalma Dias, Jurandir, Roberto Dias, Bellini e Newton Santos.
Ah! Sou da época do Rock and Roll... o estilo mais popular de música de todos os tempos. Ainda vejo o cine Peduti ser agitado com Rock around the clock, ouço como se agora fosse o som do Chubby Checker e a sua moçada. 

Por que o tempo não para?

Se parasse, a Doris Day, a Kim Novak, a Eleonora Rossi Drago, a Silvana Mangano estariam ainda divinamente lindas. Enquanto eu sonhava em casar com a Kim, ela bagunçava com o Porfírio Rubirosa e com o Serginho Guinle pelas camas dos grandes hotéis do mundo.

Digam que sou também do tempo dos Beatles dos anos 1960, que sucederam Elvis Presley, Chuck Berry mas que, para mim, nunca foram maiores que Os Incríveis e Renato e seus Blue Caps. Eu trocaria um show de Os Incríveis por um dos Beatles, juro que trocaria. Daria com prazer um braço do Beltrão ou uma orelha do Consolaro para poder assisti-los novamente.

Mas, o meu forte eram e continuam sendo as grandes orquestras; vivi ouvindo Glen Muller, Bert Kampfert, Billy Vaughan, Ray Connif, Paul Muriat, Xavier Cugat, Românticos de Cuba. Dancei aqui na terrinha com Nelson, de Tupã, Os modernistas, Continental, de Jaú, Milton Pavezzi, de Lins, Arley, de Jaboticabal e com Os Guanabaras, do grande Manfredini.

Para sonhar acordado, ouvia Agostinho dos Santos, Moacir Franco e Altemar Dutra. Nos intervalos, Trio Irakitan, Los Panchos, Sarita Montiel, Nat Cole, Tonny Bennet... I left my heart em S. Francisco. Linda.

Digam, podem dizer, pois é verdade: Eu tive a honra e o prazer só pelo fato de Deus ter permitido que eu vivesse na década de ouro da humanidade. Vi de longe o tal de movimento underground que influenciou toda a produção cultura: artes, literatura, música etc.

Foi uma época de muita riqueza cultura e que gerou grandes mudanças e que nasceu para se contrapor à cultura bem arrumadinha e sem graça de então... sem graça segundo eles. Mas tudo passa, tudo passará, ja cantava Nelson Ned.

Tudo porque La Nave precisa prosseguir.

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