Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Uma carta definitiva

O escuro se fez de repente. Amelina não sentiu suas pernas e caiu. De repente, ela sumiu por trás do balcão da loja de eletrônicos, onde trabalhava por alguns anos. Depois de alguns minutos, ela percebeu que estava deitada, mas não conseguia mexer o corpo, nem abrir os olhos. Procurava, no denso negro, reconhecer alguma voz. Eram passos apressados, carros e motos que passavam. Agonia. Ela tentava lembrar de algo, mas as ideias pesavam como navios. No mar da sua aflição, os sentimentos estavam à deriva. A consciência ia e vinham como ondas. Doía tentar pensar. Expiação.

Depois de alguns minutos, que pareciam horas, ela sentiu um gosto amargo na boca. Quis ter forças para vomitar. O corpo não atendia. O azedo só não era pior que a sensação de impotência. Silêncio. De repente, ela já não ouvia ou sentia mais nada. Foi como dormir por três dias seguidos.

Amelina estava imóvel, sem sentidos. O amargor da boca sumiu e ela sentiu paz. Já não mais tinha seus 85 quilos. Já não se chamava Amelina. Já não estava sem sentidos. Brisa. Um ar doce e leve lavou seu corpo, como se fosse um banho insólito. Paz. A moça de 40 anos estava na placidez igual a da sua infância. Sentiu como se os pés pisassem em suave e flexível solo. Ainda de olhos fechados, ela via luzes, um homem e uma mulher. Estendeu as mãos.

Vazio. Escuro. Susto. A balconista acordou de repente e vomitou verde sobre a veste verde. Sujou o pano delicado, as mãos e viu que o chão estava respingado. Ficou preocupada. Estava em um hospital. Chorou por alguns minutos, até acalmar a alma. Uma moça a ajudou. Conforto. Sentiu-se amparada. Os olhos percorreram o cano do soro, desde o braço, até o alto. Escuro. Sono profundo.

Já era outro dia quando ela acordou. Estava cercada de parentes, colegas de trabalho e pessoas estranhas. Foi um final de manhã e uma tarde de paparicos, até que a noite invadiu os corredores gelados e as visitas foram retiradas. Amelina se viu sozinha com uma senhora da cama ao lado. Calada, a estranha escrevia freneticamente em um pequeno caderno.

- O que você escreve tanto?, perguntou a balconista.

- Uma carta definitiva, respondeu a senhora com um sorriso carinhoso.

- Sou Amelina. Não sei o que estou fazendo aqui. Me senti mal no serviço. Apaguei.

- Só uma crise, disseram. Está bem. Sou Margarida. Professora a vida toda. Esta é minha última noite. Depois você entrega minha carta para um moço que virá amanhã?

- Não diga isso!, disse Amelina, desconcertada.

- Sei que é. Não tem cura. Amanhã tem operação. Chance quase nula de eu voltar. Por favor, entregue a carta.

- O que tem nela?

- É uma carta definitiva para meu neto.

- Mas o tem nela?

- O que passei a vida toda ignorando e agora eu sei.

- O que é?

- Que viver é este cotidiano, que parece chato, mas é uma delícia. Que os dias devem ser celebrados como ano novo, cada um deles. Que a vida passa e acaba antes de a gente querer. Que um dia será tarde demais para realizar os sonhos, então, não se pode adiar o viver.

Amelina ficou em silêncio, deitada e olhando para cima, até dormir. No outro dia, não tinha mais Margarida, livro, amargo na boca. Foi para casa. Agora, toda manhã ela tem a estranha mania de agradecer e à noite, todos os jantares são como os de 31 de dezembro.