Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Tudo sobre ela

Maurício não vive mais sem a Renata. Desde que a conheceu, não vive mais um dia sequer sem querer mais sobre ela. Começou como uma curiosidade, que foi se tornando uma paixão platônica, até que trocaram rápidas palavras e finalmente, um vício. O jovem estudante chegou a perder horas de sono, se prejudicando em uma prova de Física, por causa do sofrimento dela no dia em que seu gato adoecera. O que ela sente, ele passou a sentir. Uma simbiose que começou há uns seis meses e cuja tendência era se tornar um caminho sem volta.

A família e os amigos já se incomodam, há algum tempo, com as ausências dele. A presença física não garante mais que ele esteja ali com a alma. A qualquer distração, lá está ele, no telefone, pendurado.

Naquela noite, no entanto, o telefone simplesmente não funcionou. Ele tentou todas as técnicas conhecidas, mas o aparelho havia desligado sozinho e não religava. Não sabia se era bateria, superaquecimento ou qualquer outro defeito. Só apagou.

Por causa deste imprevisto, Maurício mergulhou no mais profundo poço do desespero e desamparo. Sem sinais de notícias sobre Renata, ele simplesmente sentia que não tinha mais vida. Era a primeira vez, que ele iria dormir sem saber como ela estava, o que estava fazendo.

A noite pesava em seu estômago. Tudo se revirava dentro dele, em uma incontrolável ânsia de abstinência. Maurício ficou jogado em sua cama, olhando fixamente para o teto. Passou a projetar, no ar, as lembranças sobre a amada. O dia em que ela trocou de carro; o primeiro dia no novo emprego dela; as festas que marcaram o fim do ano escolar naquela área de lazer com piscina. Tudo sobre Renata lhe interessava.

No canto da solidão, ele via germinar as lembranças como flores de luzes azuladas. Relembrou do dia em que Renata viajou à praia. E como ela estava feliz, cercada pelos amigos. Ela brincando na areia, tomando sucos e mais sucos de laranja e a insolação que deixou seu amigo Wiliam de cama, perdendo parte do passeio.

Maurício pensava em tudo isso e mergulhava na mais densa solidão. O celular quebrado o jogara em um pântano em que os sentimentos submergiam-se em um lamaçal de tristeza. As flores das lembranças, que brilhavam em seu martírio do quarto vazio, eram cordas de salvação. O rapaz não via vida fora da vida da sua amada.

A madrugada cercava o quarteirão, calando os cães da vizinhança, quando o jovem finalmente caiu em sono profundo. Sonhara a noite toda com uma estrada em que ele andava com ânsia de encontrar um repouso, mas em volta era tudo deserto. No filme projetado em sua mente durante o repouso do corpo, Maurício queimava sob um sol escaldante de saudade. Acordara junto com o amanhecer, ensopado de suor.

Levantou-se da cama em um só pulo. Correu para a cozinha, onde tinha deixado o celular ligado à tomada. Tentou ligá-lo evocando todos os santos. Luz acessa. Telefone funcionando como se nunca tivesse tido algum problema. Maurício quase chorou. Sentado no chão, passou por todos os aplicativos de relacionamento e leu os recados.

Soube que naquele domingo, Renata pretendia almoçar no shopping da cidade com as amigas. Ele não pensou duas vezes. Tomou um banho demorado, colocou sua melhor roupa, pegou o primeiro ônibus para aquele lado da cidade e seguiu. O coração batia desesperado. Depois de uma noite de desesperação, finalmente estava de volta à vida. E com o olho na tela do telefone não viu a manhã linda lá fora, com seus tons diferentes de azul e as flores nos canteiros centrais. Estava hipnotizado.

Só deixou o celular quando chegou à área de alimentação do shopping. Procurou Renata no meio da multidão. Demorou, mas a viu. Ela estava em pé, rindo com duas amigas. E naquele momento Maurício não sabia se ria, chorava ou se gritava; era a primeira vez que ele a via fora das redes sociais. 

A moça era pequena e magra demais, bem diferente do que se apresentava nos selfies e nos vídeos, toda trabalhada em poses calculadas, sob filtros. Nos InstaStories, Renata parecia uma deusa, com um corpo e rosto perfeitos. Os truques de edição de imagens, típicos das redes sociais, haviam enganado mais um incauto.

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