Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Traído pelo instinto paterno

João chegara adiantado ao consultório médico devido à ansiedade crônica. Tinha pavor em perder a hora. Não se importava em esperar por alguém ou por um ônibus por três, quatro horas. Preferia sempre aguardar a correr o risco de se atrasar. E devido a este seu jeito, tendo sempre tempo livre durante as longas esperas, desenvolvera a capacidade de se adaptar a situações e a perceber pessoas e coisas.

E naquela tarde, assim que chegara ao consultório, encontrou logo um lugar para descansar do sol forte que o castigara no lado de fora. Primeiro, passou os olhos nos quadros dispostos ao longo das paredes brancas. Velhos conhecidos. Nada tinha mudado. Depois, olhou o piso cuidadosamente, que estava mais limpo que de costume. Nada havia mudado em cima ou embaixo desde sua última consulta, há dois meses.

Chegara, então, a hora que ele mais gostava. Reparar nas pessoas que, como ele, também esperavam pelo atendimento. Eram senhoras e senhores, crianças, moças e moços. João olhava as roupas, sapatos, gestos e reparava como elas se ignoravam ou interagiam.

Naquela tarde, no entanto, uma moça, em especial, lhe chamou a atenção. Linda, uma jovem de sorriso largo olhava para o bebê em seu carrinho. Pareceu-lhe uma mãe novata e zelosa. O doce olhar dela tocou fundo no coração de João, que recém havia chegado aos 30 anos e nunca tinha tido seu instinto paterno aflorado.

Ele a olhava com admiração e até já nutria certo apreço pela criança, que nem conseguia ver. A moça, de cabelos que escorriam sobre os ombros, boca grande, de lábios bem vermelhos, exercia um fascínio sobre ele.

João já se imaginava ao lado dela, fortalecendo suas mãos nos cuidados com o bebê. Em pensamento, já passeava com ambos pelos parques como se fossem uma linda família. Enquanto decolava para o mundo imaginário, o rapaz foi se esquecendo do calor e até perdendo a ansiedade. Seus olhos não deixavam aquela figura linda. A moça fazia graça para o neném, sorria com uma paz raríssima e mexia no carrinho como se ali estivesse a coisa mais preciosa do mundo.

João pensou em ir falar com ela, principalmente depois de notar que a linda mamãe não usava alianças. Ele se encheu de esperanças. Era a chance de deixar de ser solteiro, passar a ter uma linda esposa e ainda ganhar um filho. Justo ele, que sempre teve aversão a compromissos e achava que crianças atrapalhavam os casais, que já não podiam ir mais ao cinema, namorar em paz ou até mesmo viajar em eternas luas de mel.

João já se via com a criança em seus braços. Seria um menino ou uma menina? Se fosse um menino, ele queria ser o tutor dele. Se fosse uma menina, já sonhava em ser o super-homem dela. Imaginava as brincadeiras, as broncas, as noites em claro para cuidar da febre deles. Derretia, ali, o homem que queria ser o dono do seu destino. Trocaria todas as aventuras por ser o pai daquela criança e ser o marido da moça linda.

De repente, seu transe fora cortado abruptamente. Uma senhora puxando um garoto de uns cinco anos pelas mãos saiu de um dos banheiros do consultório, atravessou, apressada, pela sala de espera e parou junto à moça loira com o neném no carrinho.

- Obrigada por ter cuidado do bebê para mim, moça. Sabe como são estas crianças, né?! Tive que trocar a roupa toda. Derramou café em tudo. Sorte que não se queimou - disse a jovem senhora antes de pegar o carrinho do bebê e o menino maior pelo braço e sair apressada, sumindo no clarão quente da tarde lá fora.

João fica sem jeito e atônito. A moça loira pegou, então, uma velha revista e se tornou, assim, apenas mais uma paciente comum, como todos os outros. Ele, no entanto, já não era mais o mesmo.

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