Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Tem um fantasma dentro de você

Érica olhou todos os brinquedos novos que estavam espalhados no chão do quarto. Ainda ontem, completara oito anos e recebera todos estes presentes dos pais, parentes e coleguinhas de escola. Estava feliz, mas sentia algo estranho no pequeno peito. Buscou entre as novas bonecas algo que pudesse devolver a euforia da véspera.

— Não é tristeza, sou eu; disse uma voz suave que invadira o quarto quase totalmente escuro.

Ela olhou o ser branco, com feições de palhaço engraçado, com um olhar de quem mata uma saudade antiga.

— Oi, palhacito. Voltou?

— Eu nunca te deixei, não tenho saído de perto, minha pequena. Mas você agora tem a escola, os amigos e o dever de casa. Sei que não tem mais tempo para a gente brincar como antes.

— Mas eu gosto de você, tá! — disse ela, tentando remendar a situação.

O fantasma sentou ao lado dela e comentou sobre os novos presentes, fez menção ao bolo e à festa. Érica ficou surpresa ao saber que seu velho amigo de brincadeiras estivera lá e ficou com pena de não ter dado atenção a ele.

— Não faz mal, não faz mal — disse o amigo branco e de cabelos engraçados.

— Mas eu não te vi lá — disse a pequena.

— Eu tentei falar com você, mas quando fui chegar perto, você passou aquele batom da sua amiga Paula. Ai, fiquei mais longe.

Ela então começou a falar com entusiasmo sobre a festa. Com as mãos, ela ilustrava os fatos e complementava os sentimentos. A pequena Érica sempre brincava com o Palhacito quando era pequena. Ele era seu amigo imaginário, com quem brincava de casinha, foguete e de tocas instrumentos musicais imaginários.

E, ao falar dos amiguinhos da festa, ela reclamou da colega Paula, a dona do batom. Ela disse que a amiguinha se transformava quando estava perto dos meninos.

— Ela brinca comigo, somos crianças. Mas quando está perto dos meninos, ela muda. Até faz piada de mim. A Paula não é mais minha amiga, sabe. Ela está virando esta pessoa que é perto dos meninos — disse a pequena Érica, com uma raiva que disfarçava a tristeza.

O fantasma, então, disse, com total placidez:

— São poucos os que vivem de verdade. A maioria está neste baile de carnaval acreditando que são as fantasias que vestem — disse ele, enigmaticamente.
Érica, confusa, confessou que não entendeu as palavras do velho amigo, que então, tentou explicar:

— A vida, garotinha, é tão simples quanto sua inocência supõe. Acontece que muitas pessoas e coisas irão te machucar, quase sempre sem querer. E para não sofrer mais, vamos inventando coisas e nos apegando a pensamentos que nos deixa mais seguros. E para não perder esta sensação de segurança, a gente faz de tudo para não perder estas que é tudo invenção da nossa cabeça.

A garota, então, bocejou. Colocou a cabeça no travesseiro e quase dormindo, disparou:
— Acho que quando eu crescer vou conseguir entender estas coisas que você me fala — disse ela, dormindo profundamente.

O fantasma, então, ajeitou o cobertor sobre ela e sussurrou:

— Quando você crescer não vai mais acreditar que poderá entender coisas novas. Já vai estar cheia de certezas. Nem em fantasmas vai acreditar.

E se afastando aos poucos, sem dar as costas à menina que dormia placidamente, desabafou:

— Quando você crescer, quando você crescer... quando as pessoas como você crescem o mundo perde a beleza. As máscaras que irá criar taparão seus olhos e você não poderá mais me ver. Mas às vezes sentirá meu abraço. Vai sentir algo que vai parecer tristeza. Vai achar que isso é depressão. E me matará com rezas, remédios, álcool ou à procura de um amor. Mas, será apenas eu. Sua inocência pedindo colo.

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