Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Solidão a três e um gato sonhador

Em um pequeno apartamento, apertado entre caixas de morar iguais, semelhantes em solidões, moram três seres igualmente desertos. Ele é habitado por uma moça chamada Tereza, cujo pensamento anda em círculo como se fosse um pássaro em gaiola apertada; um gato chamado Pantolfo que vive em mundo paralelo a sonhar com a lua; o terceiro é um relógio de parede, antigo, cujos ponteiros viciados já devoraram a geração da avó e dos pais de Tereza e agora a consome sem que ela perceba.

Há três dias o silêncio absoluto tem feito companhia a estas três tristes personagens. Tereza vive de pensar em Ronaldo; o namorado ausente. Pensa, chora, xinga, resmunga, deitada em sua cama. O gato tem passado os dias indiferente à dona e ao tempo. O relógio, com sua resignação, tem trabalhado silenciosamente consumindo as horas, engolindo a vida e o tempo.

Pantolfo é um gato criado em apartamento e que perdera o sentido da vida. Tudo sempre foi muito fácil para ele. Desde que fora adotado pela jovem digitadora, teve conforto, comida farta e lugar quente para dormir. Nas últimas semanas, o nascer da noite tem mexido com seu coração. O surgir da lua tem enchido seu coração de melancolia.

No inicio, parecia saudade de algo que ele não conseguia identificar. Com os olhos fixos no céu, ele tem ignorado completamente a movimentação dos outros dois moradores do pequeno apartamento. Por isso, vinha recusando a ração sempre nova no pratinho azul e recebido com frieza os carinhos de Tereza, que sempre passa pelo relógio sem lhe dar atenção. Para ela, as horas nada significam nestes dias, sem saber que o tempo perdido, marcado por este ser discreto, é um tesouro que é gasto sem nosso controle e nunca mais é reposto.

O sol, hoje, encontrou Pandolfo ainda parado, na mesma janela, ao sonhar com o nada. A chegada do dia, no entanto, que geralmente lhe trazia algum conforto, desta vez não serenou sua alma. Tereza estava esticada na cama, depressiva, lamentando a ausência do amado. E o relógio, este em seu tic-tac infinito, devorava a mulher, o gato, o tempo de vida deles. Um ser quase mitológico, que engole a vida ao redor.

A manhã foi mais um tédio. Até que Pandolfo aproveitou o descuido de Tereza ao receber o porteiro com as cartas acumuladas. Saiu pela porta e fugiu como se pudesse escapar de si mesmo. Perdeu-se pelos corredores do antigo prédio. Tereza nem percebeu sua fuga. O relógio permaneceu indiferente, pois para ele não há ansiedade ou preocupação. Sabe que o tempo a tudo modifica, tritura e esquece.

Já era noite quando Pantolfo finalmente encontrou a rua. Reconheceu os lugares e as solidões que ele via lá do alto. Tudo parecia maior e menos importante visto agora, de baixo, com os pés na calçada ainda quente do dia que acabara de se trancar no escuro.
Confuso e feliz, ele passeou entre as pernas indiferentes, virou esquinas, correu de cachorros e atrás de pássaros. 

Estava encontrando a si mesmo ao se perder na vida real, longe da tristeza do apartamento. E foi com o coração feliz que ele recebeu a madrugada com sua lua brilhante. O mesmo astro que entrou indiferente pela janela e encontrou Tereza pensando e o relógio trabalhando. Ambos em círculos, sem sair do lugar. Ela perdendo o tempo que é mastigado pelo velho objeto herdado da avó e dos pais.

Em uma pequena cidade, apertada entre ilhas de morar iguais, semelhantes em solidões, podemos encontrar, agora, três seres igualmente solitários. Esta urbe é habitada por uma moça chamada Tereza, que vive em mundo paralelo ao sonhar com o nada; um relógio que anda em círculo como se fosse um pássaro em gaiola apertada e um gato chamado Pantolfo cujo coração viciado consome a lua sem que ela perceba.

Nem Tereza, nem o gato terão a existência de um relógio. A vida sempre será breve demais para quem ainda não aprendeu que o tempo a tudo modifica, tritura e esquece.

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