Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Sobre um bicho abandonado

Com lágrimas, ele viu, nas calçadas, uma dor que tinha pernas apressadas, um tormento sem endereço certo e uma angústia que não tinha esquinas. Estava perdido. Tinha sido enxotado de casa, sem direito a qualquer explicação. Sua primeira reação foi a de tentar voltar, lançar os olhos perdidos entre as grades do portão e pedir colo, carinho.

Como todo animal abandonado, perambulou pelos quarteirões próximos. Por duas vezes quase fora atropelado. Estava tão tonto, que às vezes perdia noção de tempo e espaço. A tarde inclemente fez com que se refugiasse embaixo de uma árvore, em um terreno baldio. A barriga doía de fome e a alma estava cansada. Sentia todo o peso dos sentimentos em suas costas. O sol dourava a cidade, enquanto o gelo do desespero tomava conta de sua alma.

Cansado, arfava e se lembrava, tristonho, de casa, das pessoas e até do cheiro do colchão onde adorava deitar todas as noites e sonhar com grandes aventuras. A ingratidão daquela mulher em simplesmente descartá-lo, jogá-lo fora, lhe cortava a pele. A dor do desprezo era real e física.

Em meio a um choro incontrolável, ele viu a rua e o mato mudarem de cor. O rosa do crepúsculo fazia a paisagem ainda mais triste. E foi assim que ele viu surgir, como um infeliz milagre, a primeira noite, em toda a sua vida, que não tinha uma casa para morar. Por não tomar banho, começou a feder. Estava sujo. Depois de ficar olhando para o nada, como se procurasse uma explicação para o que estava vivendo.

Porém, como não via outra saída, resolveu ir a busca de alimentos. Primeiro, tentou com um casal em uma pastelaria, mas fora posto para fora do local com promessas de um chute. Sentia-se mal, traído e desprezado. O mesmo aconteceu na porta do restaurante mais à frente.

Desconsolado, andou até a praça e fora recebido com olhos de desprezo. Sujo, sem banho, não era sombra do elegante ser que alegrava a casa e a vizinhança. Agora, estava reduzido a nada, condenado a ser um bicho qualquer, destes que perambulam invisíveis pela cidade. A um ser qualquer cujo destino cruel colocou a mão e relegou toda a sorte de infortúnios.

As horas se passaram, a fome apertou, mas o sono veio mais forte. Era quase três horas da manhã. E sob os olhos condescendentes do guarda, pode dormir em um canto, junto ao coreto. Sonhou com os afagos que até a noite de ontem eram realidade. Em seu sonho, tudo ainda estava no lugar. Lá, ainda podia se divertir na sala grande, se alegrar com a chegada das crianças e se espreguiçar nas tardes de domingo.

Mas a realidade lhe bateu na cara por meio dos raios de sol. A vida cruel já estava novamente diante de seus olhos. Sentou em um canto qualquer, vendo as pessoas entrarem e saírem da padaria. Teve fome, mas teve mais medo de pedir algo e sofrer qualquer tipo de violência. Já lhe bastara a dor da alma.

E para se distrair, ficou sentado num canto do gramado olhando os carros indo e vindo. Sentiu receio e esperança de ser visto pelas pessoas da casa. Talvez reconsiderassem e lhe acolhessem de novo. Mas para não alimentar esperanças vãs, se lembrou do ódio nos olhos da mulher que o jogara para fora do portão.

Perto da hora do almoço, umas pessoas diferentes surgiram e lhe deram comida. Ele até preferia um afago, mas o prato já ajudou a se sentir menos abandonado. A tarde e noite seguintes foram assim: ele pelas ruas tentando não ser humilhado e recebendo alguma comida de estranhos.

E assim se acostumara a ser um ser animal de rua. Foram semanas e semanas nesta vida de praça, comidas esporádicas e banho, só na chuva. Tudo estava indo até relativamente bem quando sentiu uma dor muito grande no peito. Andou cambaleante atrapalhando o tráfego e caiu junto ao meio fio. Com os olhos ainda marejados, viu um vulto feminino se aproximar.

A moça, então, se abaixou, olhou nos fundos de seus olhos e disse:

- O senhor está bem?!

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