Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Sob a cruz

A cor dourada da manhã daquela Quarta-feira de Cinzas não dissipou o escuro que sobrelevava sua alma. Sentado em sua cama, o pároco Soniè vira o dia amanhecer sobre aquela inocente cidade e teve inveja da ingenuidade daquele povo. Seus joelhos ainda doíam das horas e horas de súplicas. Teve a sensação de que seus pés flutuavam. Seu corpo doía.
 
Sua via-crucis começara no dia anterior enquanto saboreava o chá da tarde docemente preparado por sua ajudante Maria das Graças, uma boliviana que estava ilegalmente no Brasil e que fora acolhida pelo pároco há alguns anos.
 
Até então, a vida seguia em paz. A virada do destino aconteceu quando Douglas — um seminarista que dividia com ele a casa paroquial — entregou-lhe as mais recentes cartas. Entre cartões e saudações de velhos amigos, estava um envelope escarlate. Dentro dele, uma pena de coruja. O coração do velho padre gelou. Sabia que havia sido encontrado. A xícara ficara pela metade.
 
O velho padre viu chegar a manhã do dia seguinte sem se dar conta de que a madrugada havia passado. Com os olhos tristes, celebrou uma missa melancólica. Sentado, perto da única porta de saída, Ramos Martijo apenas esperava sua hora de agir. Soiniè e Martijo se conheceram no Chile, em 1976. Foram anos em que caminhavam juntos nas trincheiras do extinto CLA (Comando para Libertação de América). Eram jovens cheios de sonhos. Queriam mudar o mundo, mas foi o mundo que os mudou.
 
Soniè seguira direto para as missões no interior do Brasil. Martijo fora levado às terras italianas e iniciado para fortalecer o exército de extermínio daqueles que consideravam impuros com o evangelho. Desde então, muitos homens perderam a vida em nome da purificação.
 
Segundo o relato do delegado Marciano Gouveia, o que fora encontrado na cena do crime era hediondo. O corpo de um homem estrangeiro degolado com a língua arrancada como uma gravata e o amado padre morto com uma espada enfiada pelas costas.
 
— Quem cometeria um crime deste na igreja? — perguntava Gouveia, até então acostumado apenas com mortes motivadas por ciúmes ou drogas. Saiu em diligência com Castro, seu ajudante e guarda-costas informal.
 
Gouveia foi então à casa paroquial e teve dificuldades para vencer a multidão se que aglomerara lá. Quando passou ao portão, já irritado, entrou e encontrou o jovem seminarista Douglas recolhendo livros e papeis que estavam na sala. O delegado então pediu que tudo fosse posto em uma caixa para ele avaliar depois. Douglas, desconfortável, tentou seguir a ordem. Foi Castro que se atentou ao envelope vermelho que estava na escrivaninha do padre. Achou estranha a pena como mensagem. Ai indagar o seminarista, o jovem mostrou-se desconfortável e titubeou a responder. Parecia que tinha pressa nas palavras e nos atos.
 
O delegado fez pequenas perguntas para não chamar a atenção. Deu conta de que Castro já não estava mais por perto e o procurou pela casa. O encontrou sentado na cozinha conversando com a boliviana Maria das Graças, que passava um café novo. Ela cortava um frango com grande agilidade para preparar uma canja. Um som alto. Todos se assustaram com o bater da porta. O seminarista saíra assombrado, correndo. Em poucos minutos toda a polícia já estava atrás dele.
 
O delegado Gouveia, correndo com dificuldades, avistou o seminarista entrando na Casa de Cultura da cidade pela lateral. Lá, o seminarista tinha furtado uma reprodução do quadro “A Traição das Imagens – Isto Não é Um Cachimbo”, de René Magritte e o abandonado encostado na porta, com se fosse um aviso.
 
A noite caía e os dois policiais parados no semáforo. Os olhos do delegado fixaram no sinal fechado. O vermelho luminoso clareou suas ideias. Soltou um palavrão enorme e acelerou o carro, quase batendo em uma caminhonete que atravessava.
 
Imagens corriam sua cabeça. O envelope vermelho. A pena. O seminarista na Casa de Cultura. A boliviana cortando o frango. Castro não entendeu, mas seguia o chefe. Chegaram à casa paroquial já com o dia escuro. Entraram com as armas nas mãos e não se atreveram a acender a luz. Castro tinha entendido tudo no carro depois de o delegado explicar. O quebra-cabeça estava armado.
 
Chegaram à casa paroquial já com o dia escuro. Entraram com as armas nas mãos e não se atreveram a acender a luz. Castro tinha entendido tudo no carro depois de o delegado explicar. Nada encontraram na casa, mas a cena encontrada no quintal era assustadora: o seminarista caído no chão, com a garganta cortada.
 
Só saíram do estado de choque quando ouviram o portão da frente bater. Correram o quanto puderam e viram quando a boliviana virou a rua, duas esquinas depois. O fato de a carta estar sem selo e endereço, a destreza da ajudante em cortar o frango e o medo do seminarista naquela manhã denunciavam o assassino.
 
O futuro padre tinha ido à Casa de Cultura para mostrar que o que parecia ser não era a verdade. O delegado e o assistente estavam sendo levados pelo óbvio. A boliviana fora encontrada uma semana depois tentando atravessar a fronteira. Descobriram que ela era, na verdade, Mercedes Marlice Hojele. Já tinha outros crimes na ficha, todos sob encomenda.
 
Demorou um ano para que o delegado recebesse o relatório final da Interpol explicando a ligação do padre com o outro homem morto naquele dia, a questão religiosa e a explicação de que a ajudante assassina tinha a missão de proteger o padre. Não tinha evitado seu assassinato, mas conseguira matar o seu algoz. O seminarista foi morto por tentar dar uma de herói, prender a assassina.
 
Acabando de ler o relatório, o delgado viu a esposa novamente bêbada, dormindo no sofá, e percebeu o quanto seu mundo é pequeno e restrito. Viu a pequena ingênua cidade pela janela e teve inveja.
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