Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Sem motivos lógicos

No cinza maçante do centro da cidade, almas desfilam cotidianamente tediosas. São olhos e sonhos que assombram as calçadas e habitam provisoriamente as lojas que oferecem algum consolo à alma. São espectros que ignoram um andarilho que dá alguma cor aos dias que se sucedem sem grandes expectativas. Nas beiradas das calçadas, Cícero - que é tratado como bicho de estimação pelos vendedores das lojas – vive a recolher latas, restos de cigarro e fatias de esperanças. Sua sacola de tranqueiras sempre está repleta de restos; sobras de objetos e de atenções.
 
Em um final de tardes destes, que há de ser esquecido nas quinas no tempo, ele fartou-se de um quase inteiro cigarro que fora despejado por um senhor de terno que entrou apressado na loja de relógios. Feliz com a grande fortuna, fez até pose para saborear o tabaco. Respirou fundo, tragando fumaça que lhe enchia o pulmão de alguma dignidade.
 
A alegria de Cícero fez companhia aos últimos momentos do dia de labuta, que ia morrendo em tudo que já não fazia sentido. As portas das lojas se fechavam em estrondos. Cerradas, escondem os medos dos vendedores. Fechadas, protegem a paisagem de uma vida que faz mais sentido ao andarilho com seu cigarro que a uma multidão que se cruza, escorre, corre e se esconde como insetos. Baratas que tentam não ser esmagadas pela realidade. 
 
Alheio ao precipício da incerteza do amanhã, Cícero assistia impassível ao chegar da noite. Como sempre, percorria os olhos às mãos dos amigos de centro, que não raro deixavam algo para seu jantar. Restos de comidas e dignidade. E veio das mãos da moça loira da loja de perfumes um lanche inteiro. Cícero recebeu o alimento com mãos agradecidas. Ela entregou o pequeno pacote e se afastou em silêncio. Apenas agradeceu com os olhos em reverência. Sua prece de graças fora interrompida, no entanto, por um grande estrondo. Um carro, uma moto e uma multidão de curiosos. Um corpo no chão. Era a moça do lanche atropelada.
 
Cícero calou o grito, que mesmo assim ecoou em vibrações de se sentir na alma. Ele correu até ela com uma urgência de vida ou morte. Fora impedido de se aproximar. O morador de rua, no entanto, a alcançou com os olhos. Rezou. Ao ver a menina seguir na ambulância, virou-se para seu cantinho a tempo de ver um rapaz de boné vermelho roubar seu lanche e correr. Desta vez, gritou. Mas ao invés de receber apoio, tomou um soco seco na nuca. Um golpe que mostrava que sua presença é tolerada, desde que não interfira na vida das pessoas comuns.
 
Atordoado, caiu sobre os joelhos. Mergulhou fundo, mas por milagre e forçosa vontade voltou à tona. Aprendera a sobreviver. O escuro da noite finalmente o cingiu, como também democraticamente abraçou a todos, ao centro e à cidade. Ainda com dores, partiu em uma busca aflita pelo rapaz de boné. Perguntou sobre o algoz às outras sombras anônimas da noite e assim fora obtendo pistas sobre o ladrão de jantar. Uma chuva rala surpreendeu e banhava displicentemente o centro da cidade. Determinado, andava a passos rápidos em busca de vingança.
 
Finalmente avistou o rapaz de boné sentado em frente a uma escola. Estava sozinho, provavelmente digerindo o bacon do lanche. Cícero fechou os punhos e foi caminhando decidido. Já previa os golpes que daria. O silêncio do ato, contudo, fora quebrado como a um vidro que cede ao golpe do soco do destino. Gritos surgiram de um bar do outro lado de rua. Era a torcida de um time de futebol.
 
O andarinho não tinha paixões por esporte, mas a alegria coletiva sempre o fascinara. Atravessou a rua gritando gol. Perdeu-se na comemoração alheia. Fora abraçado por desconhecidos felizes, emocionados. O andarilho encheu a mão de salame, colocando tudo, de uma vez só, em sua boca. Sorria ditoso para os novos amigos de fortuna. Dava para ver parte da comida saltando entre os poucos dentes de sua boca feliz. Ele sempre teve uma queda pela alegria, principalmente as sem motivo lógico.
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