Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Sem Deus, tudo é possível

A existência de um princípio criador, que comumente nós chamamos de Deus, é um tema muito acalorado entre os existencialistas, ateus, agnósticos, religiosos... Enfim, até quem não gosta de religião algumas vezes se pega pensando ou falando sobre este assunto. Mas quem pode provar que Ele existe ou o seu contrário? E final de contas, que diferença isso faz em nossa vida cotidiana?

Estas são algumas perguntas que permeiam também a literatura, onde podemos encontrar diversas e excelentes reflexões sobre o tema. Guimarães Rosa, por exemplo, em “Grande Sertão Veredas”, faz diversas análises sobre o Criador. Usando a inteligência cortante do jagunço Riobaldo, chega a decretar que “Deus é paciência. O contrário é o diabo”.

Guimarães Rosa vai além dizendo que tudo que no mundo é bonito é absurdo, ao contrário de Deus, que é estável. Em resumo da obra, o personagem sempre coloca a existência do princípio criador como algo indiscutível, reforçando que a dúvida é coisa do diabo, que toma conta de tudo onde não há o Soberano.

Em “A Gaia Ciência”, o filósofo Friedrich Nietzsche, também usou da literatura para discutir o assunto. Escandalizado com o declínio dos valores cristãos na Europa do final do Século 19, ele criou um personagem que corria as ruas com uma lanterna procurando por Deus e em dado momento decreta a morte do mesmo.

Muitas pessoas confundem esta passagem, mas creio o que o autor queria provocar o debate, como é o seu papel dentro da ciência do pensar. O que ele queria mesmo dizer é que temos nos virado demais à praticidade e ao questionamento intelectual. O que Nietzsche afirma é que a influência da religião em nossas vidas é, desde aquela época, cada vez menor.

Sei que o leitor poderá acrescentar a estas parcas linhas, mil outras obras que discutem o assunto com tanta ou mais propriedade. Mas, por hoje, nas minhas limitações, quero eleger como um fechamento definitivo para a discussão entre a existência de Deus ou não por meio da literatura, uma reflexão presente na obra “Os Irmãos Karamazov”, de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1879.

Em certa altura do romance, o personagem Ivan Karamazov diz que “se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido". Esta afirmação evidencia, na visão do autor, que sem a presença do princípio criador, não há a possibilidade de se estabelecer qualquer princípio ético universal.

Claro que vamos encontrar na filosofia o contrapeso a esta afirmação, como em Kant, que defende que estes princípios estão dentro do homem, mas não fora dele. Porém, este é um debate para outro momento e será mais bem mediado por quem entende de fato.

Santo Agostinho, ao se questionar como Deus permitia o mal, chegou à conclusão que este é como a escuridão, não existindo por si só, mas sendo apenas a falta de luz. A guerra, a dúvida e o medo são, nesta lógica, a manifestação da não presença da luz divina.

Tudo seria um caos, já que tudo é permitido, se a alma fosse mortal e não responderia por seus atos à luz da justiça divina, que é imutável. Sem Deus, tudo é possível, principalmente o caos e a ignorância.

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