Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Quando é tarde demais para ser sábio

- Não devias ter envelhecido antes de ficares sábio; disse o bobo ao imperador em Rei Lear, de Shakespeare.
 
- Não devias ter envelhecido; repetia Macedo a si mesmo, relendo a frase que estava citada em um artigo de jornal, principalmente sem ter se tornado sábio.
 
Não devias, disse Macedo a sim mesmo, vendo as rugas em suas mãos que seguravam o jornal quase todo ele gritando más notícias. Homem formado, com seus 60 anos, ele teve medo.
 
Não devias, não devias, não devias! Macedo, homem de boa reputação, trabalhador e exemplar pai de família, teve vontade de gritar. Sentiu uma vontade súbita de bater em si, em um ato louco e libertador, ali mesmo, no meio da praça. Seria um ato grandioso de quem finalmente reconheceu que nada sabe, que os cabelos quase brancos não representam sabedoria ou conhecimento.
 
Porém, mais por covardia que prudência, permaneceu sentado no banco da praça. E ficou ali, alternando os olhos entre o jornal e a vida cotidianamente besta que acontece ao redor. A vida que se concretiza nos passos lentos da senhora de vestido florido, no chapéu do pipoqueiro e no chinelo da criança que teima em fugir de seus pés quando tenta correr, em vão, atrás dos pássaros, que sempre fogem em voos curtos. Pousam, voam, pousam. E a criança, que fica entre o pegar o chinelo que ficou para trás e a vontade de pegar o pombo na mão, fica ali, sem saber, vivendo a metafísica luta entre o ter e o querer.
 
Se na peça shakespeariana o rei é traído pelas duas filhas e morre com o remorso de ter deserdado a única das três filhas que lhe fora fiel, na vida real, na vida de Macedo, o arrependimento era por ter traído a si mesmo. Passou a vida cuidando demais das outras pessoas, se anulando para agradar esposa, filhos e amigos. Chegou à velhice sem ser sábio o suficiente para ser fiel a si mesmo, seus instintos e desejos.
 
Levantou-se em um arroubo, cruzou a praça e foi direto a um bar. Mal se importou se era cedo demais para uma cerveja. E tomou uma, duas, quatro. Embriagado, deixou-se jogado no balcão vendo a vida real rodar ao seu redor. Ele praguejou em voz alta contra o destino, incomodando os demais clientes. Culpou aos pais, à esposa e aos filhos por seu infortúnio. Quis brigar com o passado, machucando-se ainda mais no presente. Fez como o Rei, culpando aos outros por suas escolhas erradas.
 
Já no entrar da noite, voltou cambaleante para casa. A esposa, que nunca tinha visto ele nesta situação, lhe deu um banho e o colocou para dormir. Ele então teve sonhos confusos, até despertar de madrugada. Acordou assustado às 4h da madrugada. Lembrou de tudo o que passou e teve vontade de ir embora, largar todo seu legado e recomeçar a vida. Consciente, agora queria reiniciar sua existência. Finalmente, obteve a sabedoria de que primeiro deve se amar.
 
Quando foi se levantar, sentiu uma dor imensa nas costas. Coisas da idade. A esposa teve que acordar para lhe passar um remédio na lombar.
 
- Não devias ter envelhecido antes de ficares sábio; repetiu ele em voz baixa, agora rindo do seu destino.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.366746