Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: O grande aplauso

Romauldo, filho de classe média alta, não tinha o sonho de seguir os passos do pai na administração da empresa de máquinas pesadas. Tampouco queria ser médico, engenheiro ou qualquer outra profissão que lhe rendesse uma vida tranqüila e algum status. Seu sonho era estar no palco do teatro. Rendia odes a Dionísio, o deus dos palcos e com ele gostaria de dividir a vida. 

Desde pequeno Romualdo já apresentava sintomas de artista. Gostava de escrever peças e apresentar os espetáculos na escola e nas reuniões de família. Já adolescente, enquanto os amigos queriam ser jogador de futebol e ter muitas namoradas, ele ficava deitado em sua cama sonhando em ser um grande ator. Seu principal sonho era estar no centro da cena, dar sua fala e ver todos aplaudindo em pé. Do público, aos demais atores, passando pelos técnicos de som e luz. Todos em pé lhe aplaudindo.

A família do garoto fez de tudo para demovê-lo da ideia. A mãe Esmeralda fez até novena para que o filho se tornasse pelo menos um economista, para trabalhar de paletó e gravata. O pai, Geraldo, ofereceu até cursos no exterior. Dinheiro não era problema. Queria que o filho fosse pelo menos dentista, professor ou até jornalista: qualquer coisa, menos ator. 

A vida foi passando e Romualdo só pensava nos palcos. E sem que os pais tivessem sucesso em suas empreitadas de fazê-lo mudar de ideia, ele partiu para seu sonho. Fez dois ou três cursos de teatro, mas os professores só o colocavam para trabalhar nos bastidores. Mas ele queria é ser ator e por isso foi pulando de grupo em grupo até que um dia lhe surgiu uma oportunidade.

Acontece que o grupo que lhe deu um papel estava mais interessado no patrocínio que a empresa de sua família poderia dar à montagem. E nos ensaios, Romualdo era tolerado pela capacidade de angariar fundos. Ele não decorava bem as falas, se atrapalhava em cena derrubando os objetos, e quando não raro, tinha crises de ansiedade que lhe deixavam horas preso no banheiro.

Ciente de suas dificuldades, Romualdo alugou um pequeno apartamento perto do teatro. Não queria perder tempo com os pais, deslocamentos ou qualquer outra coisa. Queria realizar seu sonho de ser aplaudido de pé por todos. Então, quando não estava no ensaio, estava preso em seu apartamento tentando decorar as falar, achar as entonações perfeitas. Construía e desconstruía seu personagem, criando e recriando gestos, sotaques. 

Em uma tarde de sábado, durante um ensaio aberto ao público de amigos, Romualdo sentiu todos os sintomas de ansiedade que toma os artistas antes de uma apresentação. Sentia um suor excessivo, uma dor na barriga, as pernas tremiam. No momento exato, ele subiu ao palco e até foi bem nas primeiras falas. Com cinco minutos de cena, no entanto, veio o primeiro branco (esquecimento total do que tinha que falar).

A plateia foi generosa, os amigos se entreolhavam e seus pais, sentados na primeira fila, sentiram uma ponta de vergonha. E Romualdo ficou no meio da cena, parado, com os olhos esbugalhados e sentindo uma gota de suor descer pela testa. 
O diretor interrompeu aquele constrangimento aos berros. Mandou todos voltarem às marcas iniciais e recomeçar. Havia uma grande tensão no ar. Os demais atores recomeçaram a cena e Romulado, mais uma vez, foi bem no começo. Mas, no mesmo ponto, na mesma fala, travou de novo.

Desta vez, houve um silêncio enorme. Ele ali, parado, olhando para todos. De repente, ele arrancou o colete do seu personagem e o arremessou ao chão. E gritou, como nunca tinha gritado em sua vida.

— Chega! Não vou mais ser ator. Minha carreira termina aqui.

Quando abriu os olhos, se viu, ali, no centro da cena sendo aplaudido em pé. Do público, aos demais atores, passando por seus pais e pelos técnicos de som e luz. Todos em pé lhe aplaudindo, como ele sonhara a vida toda.

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